Conversa entre investidores: Carlos Pessoa e Mitsuru Nakayama – Parte 2

postado em: Carlos Pessoa Filho, Empreendedor | 0

Neste capítulo, os investidores Carlos e Mitsuru falam de suas impressões sobre o mercado brasileiro de empreendedorismo.

Carlos começou a conversar contando como o ecossistema de startups encontra espaço para crescer no Brasil, no fim da década de 90. Agora, sobre o que viu mudar nos últimos 20 anos, tanto na cabeça do empreendedor quanto na do investidor de risco no país. Mitsuru, além de conduzir a entrevista, faz um paralelo com a realidade dos empreendedores no Japão.

 

MITSURU: O que mudou no setor de empreendedorismo brasileiro de 2000 para cá?

CARLOS: Muita coisa. Muitos dos primeiros empreendedores digitais brasileiros do fim dos anos 90 largaram posições confortáveis no mercado de trabalho para empreender. A cabeça desse pessoal era mais de pequeno empresário. Nem todo mundo tinha uma visão ambiciosa do próprio negócio ou da oportunidade que estava encaminhando no mercado. Como não havia muitos “compradores de empresas”, tampouco espaço no mercado de capitais para fazer IPO de companhias menores, empreendedores não viam ciclos no negócio. A oferta limitada de capital fazia com que a preocupação central fosse girar o dinheiro para financiar a operação do dia a dia, ou seja, sobreviver. Era o negócio da vida. Esse modo de ver as coisas foi importante para o amadurecimento dos empreendedores. Comprometimento é uma característica primordial para empreender. Você não pode montar uma empresa já pensando em vender, ainda que isso se torne boa opção no futuro.

O custo para montar uma startup no mundo todo caiu bastante de 20 anos para cá. No Brasil, não foi diferente. O mercado de venture capital aqui cresceu, apareceram mais investidores anjos, fundos de seed stage, fundos Série A. Nem se falava disso naqueles anos. Não é mais só quem tem acesso a capital que monta uma startup, é quem tem acesso à ideia e capacidade de execução. Hoje, quem conseguir executar melhor uma boa oportunidade tem mais dinheiro fácil.

Por outro lado, o mercado brasileiro ainda tem menos competição do que mercados mais maduros, como o do Estados Unidos e da Europa. E competição tanto de empresas quanto de oportunidades de investimento. A legislação nacional ainda não apoia muito o investidor anjo.

MITSURU: No Japão, a abertura da bolsa de valores para pequenas empresas, há uns 20 anos, foi determinante para o ecossistema de startups do país. As empresas começaram a fazer IPO mesmo com um tamanho bem pequeno. Ou seja, o ecossistema japonês de startups passou a ver “saídas” legais o que ajudou a mudar a mentalidade e abrir os olhos de empreendedores em potencial. No Brasil, há “saídas” que se destacam ainda no início dos anos 2000?

CARLOS: Entre os exemplos fortes de “saída” daqueles tempos está o Submarino, cujas ações estrearam na Bolsa de Valores de São Paulo em março de 2005. Outro caso importante é o do empreendedor Aleksandar Mandic que, em 1990, largou uma carreira de 18 anos na Siemens para abrir o provedor de internet Mandic BBS, precursor no Brasil. Levantou capital, vendeu esse provedor e montou outro, o IG. Depois vendeu e montou a Mandic Mail. Hoje, a atual Mandic faz vários serviços para pequena e média empresa. Que também foi vendida, e, agora, Aleksandar está com um aplicativo, o Mandic WiFi Magic. Tivemos também em 2009 a venda do Buscapé, que começou como um site comparador de preços no fim dos anos 90 e foi vendido por US$ 342 milhões – a terceira maior transação da história da internet no Brasil à época. Tem o pessoal da Movile, dona do iFood… Esses foram os primeiros casos do típico empreendedor aqui no Brasil. Não tinha uma coisa disruptiva em termos globais, mas era disruptivo localmente. A internet estava começando aqui, e os caras olharam para fora para ver o que poderiam fazer com isso. E essa lógica perdura até hoje.

A internet começava a se expandir nos países emergentes. No Brasil, tudo se resumia a e-commerces, portais e provedores. Houve então o que podemos chamar de “explosão” da bolha da internet no país. Muitos empreendedores morreram tentando, é verdade, mas alguns deram certo e abriram capital ou venderam a companhia, e tiveram bons eventos de liquidez. Eles começaram a estruturar os alicerces para um novo mercado.

Lacuna de investimento

Vivemos a infância do mercado de capital de risco no Brasil. O fundo de venture capital tal qual a gente conhece hoje, do padrão americano de financiar startups, começou no Brasil de verdade, de uma forma institucional, com mais fundos e tal, entre 2008 e 2009. Vemos agora o resultado da primeira safra de investimento, feita no país há 10, 20 anos, por empreendedores como Paulo Véra (99), Fabrício Bloisi (Movile), Romero Rodrigues (Buscapé), David Vélez (Nubank), Igor Senra (Moip), Vinícius Roveda (ContaAzul) – e muitos outros.

Começamos a ver “saídas” de alguns unicórnios, como é o caso da 99 e da Nubank. E até de decacórnios, que alcançam o valor de mercado de 10 bilhões de dólares, como é o caso do PagSeguro – que no início deste ano fez a maior oferta de ações de uma empresa brasileira nos Estados Unidos. Significa que estamos começando a entrar na fase do movimento mais maduro e sustentável aqui no Brasil, e o resultado está vindo como o esperado.

Hoje faltam no mercado de startup do Brasil fundos de venture capital focados em capital seed (fase na qual as empresas já passaram por uma aceleração, receberam capital de investidor anjo, já geram caixa e têm faturamento de 500 mil reais a dois milhões de reais). Nesse estágio, de alto risco, as empresas entram no vale da morte. Muitas fecham as portas por não conseguir capital para financiar seu crescimento. Quem não morre nessa faixa chega muito melhor na próxima etapa. Muitos projetos inovadores poderiam trazer benefícios gigantes para o Brasil, mas acabam morrendo, simplesmente, por falta de dinheiro. Isso não aconteceria em mercados mais maduros. O mercado de financiamento de startups nos Estados Unidos, por exemplo, tem mais de 450 fundos só para esse estágio do negócio. O nível de especialização é grande, com subcategorias de fundos de Seed especializadas em momentos distintos: pre-seed, seed, seed extension e o post-seed. No Brasil, temos quatro ou cinco grandes fundos para capital seed.

MITSURU: A lacuna no mercado de investimento em capital de risco no Brasil que eu vejo também é nessa fase da vida do negócio que chamamos de early stage, na qual a startup normalmente já passou por algum processo de aceleração, mas ainda precisa de testes para se consolidar. A maioria dos empreendedores brasileiros não é experiente, está fazendo a primeira empresa e precisa muito de dicas, mentoria, histórias de outros empreendedores. Não é difícil vermos investidores fazerem uma verdadeira bagunça na empresa, já que nem todos são profissionais. Já os fundos grandes investem em empresas brasileiras em fases mais maduras do negócio, trabalham com tickets mínimos altos e têm a cabeça voltada para o mercado financeiro.  

Montando um fundo de capital seed

CARLOS: Várias questões podem levar um empreendimento a não dar certo. Falta de capital não pode ser uma delas, se for mesmo uma boa equipe executando uma boa ideia. A área que lidero dentro da Invest Tech, onde estou há quase dois anos, é focada em investimentos em startups em estágio inicial. Conheço a gestora desde 2004. Os sócios fundadores foram mentores da Endeavor quando eu trabalhava lá. Depois, quando eu estava na Wayra, acabei liderando também as iniciativas ligadas a investimento em fundos de venture capital e private equity da Telefônica no Brasil. Nessa época, a Telefônica da Espanha investiu no segundo fundo na Invest Tech e nossa relação se tornou mais estreita. Cinco anos depois, decidi montar um fundo para endereçar esse gap de financiamento para startups seed stage. A Invest Tech também estava se estruturando para montar um fundo similar. Por isso, decidimos somar nossas experiências no mercado e montar um fundo juntos, em janeiro 2017. Além de investir em startups, temos na nossa base de investidores do fundo um número grande de empreendedores e executivos com muita experiência de mercado que se disponibilizaram a apoiar os empreendedores por nós investidos por meio de mentoria e assentos em conselhos consultivos. Esse aspecto é tão importante quanto o investimento em si, já que o empreendedor é muito solitário no dia a dia.

MITSURU: Em que aspecto o ecossistema de empreendedorismo no Brasil ainda precisa evoluir, na sua opinião?

CARLOS: O Brasil não é reconhecido mundialmente pela inovação e tem pela frente um desafio importante: formação de talentos em alta escala e de boa qualidade. Há muita oportunidade para empreender aqui pela quantidade de problemas que precisam ser resolvidos no país. Quem consegue resolver problemas grandes consegue ter empresas grandes. Mas isso demanda pessoas. E o que os empreendedores brasileiros podem ter a seu favor é que conseguir fazer negócio no Brasil já é em si uma vantagem competitiva. Dificilmente um concorrente estrangeiro consegue replicar um modelo de negócio aqui sem a experiência de como funciona o mercado local.

Algumas características do Brasil são difíceis de copiar. Por exemplo, seus 200 e poucos milhões de habitantes. É uma das maiores economias do mundo, com um mercado consumidor potencial começando a entrar em volume no mercado digital agora e a ter acesso a opções mais baratas de smartphones com bom poder de processamento e conexão mais rápida e acessível. Além disso, a população no Brasil é extremamente jovem em relação a de outros países de demografia semelhante. Há pela frente bons 20 ou 30 anos de uma população ávida por serviços digitais.

O Brasil tem problemas grandes ligados a direitos básicos, como saúde, educação. E muitos outros ligados a burocracia e ineficiência operacional. É verdade que tudo isso vem melhorando ao longo dos anos, mas ainda há um abismo entre o nosso mercado e o de economias mais avançadas. Alguém vai ter que resolver isso, e eu aposto nos empreendedores.

MITSURU: Temos que ter em mente também que demora para entender o mercado e receber resultado. Falo em 10 anos no mínimo. Se você pensa em ganhar algum fruto em três anos, é melhor esquecer. Eu mesmo, quando me mudei para o Brasil, demorei dois anos para decidir fazer meu primeiro investimento. Já faz cinco anos do primeiro investimento e eu ainda não estou pensando em fazer sucesso.  Daqui a 5 anos pode até ser, mas ainda demora. Isso tem que ficar claro para estrangeiros interessados em entrar no Brasil. Que dica você dá para investidores estrangeiros, como os japoneses, por exemplo?

CARLOS: A dica é identificar bons sócios aqui no Brasil e não começar sozinho. Para poder transitar bem e ter acesso às melhores oportunidades no país. Acho que essa é a melhor forma de começar. Ter parcerias sólidas locais, com pessoas de confiança, faz toda diferença.

MITSURU: Nem todo mundo sabe, mas o Brasil é o país de alguns empreendedores conhecidos globalmente, como Eduardo Saverin, cofundador do Facebook, e Mike Kriger, cofundador do Instagram. Eles tiveram alguma influência no desenvolvimento do empreendedorismo no país?

CARLOS: Eles já moravam fora do país há algum tempo quando passaram a ser conhecidos mundialmente. Para um brasileiro médio, eles não são a referência de empreendedorismo. Podem até ser referência mundial, mas no Brasil, pelo fato de eles terem desenvolvido toda a vida deles lá fora, aparentam quase ser gringos com uma ascendência brasileira montando um negócio. Eu dou muita palestra pelo Brasil a fora e sempre peço para a plateia nomear empreendedores brasileiros de sucesso. Como o Eduardo e o Mike não estão baseados no Brasil, infelizmente a referência do exemplo fica distante do empreendedor brasileiro.  E, se você não tem exposição constante a um exemplo, fica difícil de se inspirar nele. Lembro que, na época em que o Guga (Gustavo Kuerten) começou a ganhar campeonatos mundiais importantes de tênis, as crianças começaram a querer praticar o esporte no Brasil. Você vê que aquele cara chegou lá e se identifica com ele, pensa: “poxa, eu também consigo”. Esse é o poder do exemplo.

Carlos Pessoa Filho do Invest Tech
Carlos Pessoa Filho do Invest Tech

Carlos Pessoa Filho: 
Carlos ajuda startups a crescer desde que o empreendedorismo de oportunidade começou a se desenvolver no Brasil, no fim dos anos 90. Como voluntário da recém-chegada ao país Endeavor, quando ainda estava na faculdade, ele passou a fazer parte do ecossistema de startups e, representando a ONG, participou do desenvolvimento do mercado de empreendedorismo de alto impacto em outros dez países emergentes além do Brasil. Hoje, lidera a divisão de investimentos em startups em estágio inicial da gestora Invest Tech, sediada em São Paulo. Foi Diretor geral na América Latina da plataforma líder de cursos online Coursera entre 2015 e 2016, período no qual a região se tornou a geografia com maior crescimento no mundo.          Antes disso, ajudou a montar do zero a aceleradora Wayra, iniciativa da Telefônica, gigante do setor de telecomunicações no Brasil, para se aproximar de soluções inovadoras de negócios. Na Wayra, Carlos investiu em mais de 45 startups digitais.

 

Mitsuru Nakayama, CEO do Brazil Venture Capital
Mitsuru Nakayama, CEO do Brazil Venture Capital

Mitsuru Nakayama: 
Mitsuru é de Tóquio, Japão, e mora no Brasil há quase sete anos. Chegou ao país em 2012, como consultor da norte-americana Bain & Company, para a qual já trabalhava em seu país. Em 2014, mais habituado ao mercado de empreendedorismo do Brasil, Mitsuru fundou a Brazil Venture Capital, com o fundo focado no desenvolvimento de startups locais de tecnologia no estágio inicial do negócio. Um exemplo de startup que recebeu um aporte e mentoria da BVC é a bxblue, empresa brasileira de crédito consignado, fundada pelo empreendedor pernambucano Guga Gorenstein, cuja história é contada nesta série de entrevistas.


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