Entrevista com Vinicius Roveda, fundador e CEO da ContaAzul – Parte 2

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Nesta série da Brazil Venture Capital (BVC), você tem a oportunidade de aprender com os erros e acertos de quem alcançou o sucesso.

A seguir, veja a segunda parte da entrevista de Vinicius Roveda, fundador e CEO da ContaAzul:

 

As lições do 1º produto

Fomos precipitados com o primeiro produto da ContaAzul. Ouvimos alguns clientes achando que aquilo era a verdade absoluta, era o que o mercado precisava. Não fizemos uma pesquisa adequada nem desenvolvimento experimental, perdemos muito tempo fazendo e, quando colocamos à venda, o produto não atendeu ao mercado. Tinham dois ou três clientes usando, mas imaginávamos milhares.

Nessa época, falava-se muito no Brasil sobre e-commerces, muitos estavam aparecendo. Mas a dinâmica desse mercado é muito diferente de SaaS (Software as a Service). Hoje tem muito conteúdo por aí. A falta de conhecimento nos fez gerar um produto da nossa cabeça. Nossa inexperiência nos trouxe problemas com a distribuição, com a venda, cometemos uma sequência de falhas. Mas a gente sabia que era aprendizado e mantivemos a esperança de que, se tentássemos de novo, seria diferente.

 

Pausa no plano principal

Eu e o Sardagna estávamos nessa mistura de êxtase com frustração quando encontramos dois amigos numa situação parecida. Nos juntamos para criar a Informant, especializada na criação e manutenção de software com muito valor agregado. Já conhecíamos muito sobre nuvem e eu havia construído uma rede de relacionamentos legal nos últimos meses que fiquei na Tecnosystem, na área de pré-vendas. Esses dois amigos também tinham bons contatos, então nossa demanda já começou boa. Tínhamos clientes grandes, como a Grendene e a Kroton, que procuravam um produto diferente, em nuvem e com um design próprio. Pegamos uma série de projetos, mas sempre com início, meio e fim.

Foi legal. Dediquei três anos (junho de 2007 a setembro de 2011) à Informant. A empresa chegou a ter 30 e poucos funcionários e a faturar uns milhões, o que já era o auge da nossa vida. Mas, no meio disso, vi que não era aquilo que buscava. A empresa era legal, estava super motivado, as pessoas eram focadas, a cultura que a gente colocou era muito alinhada com a que eu acredito, mas faltava um componente: eu queria uma empresa que pudesse escalar, ser relevante. Sentia vontade de inspirar outras pessoas, de ser talvez a maior empresa de software do Brasil; meu sonho era ainda maior do que o que eu estava vivendo.

 

ContaAzul renasce

Quando eu entendi que queria algo mais escalável, maior, e que aquilo ainda era uma oportunidade, falei para o Sardagna e com os outros sócios que era hora de voltar. No fim de 2010, ninguém tinha entrado forte ainda para resolver problemas de pequenos empresários. Pelo menos não na área de softwares de gestão. Demos uma segunda chance para aquela ideia. Tentamos fazer inclusive uma rede de revendas no Brasil inteiro. Eram 30 e poucos pontos de revendas. Foi um ano de trabalho. E esses pontos, juntos, não vendiam o que a gente vende hoje em algumas horas. Também não deu certo.

Não estava adiantando querer fazer tudo por nossa conta. A gente precisava sair do Brasil para ter acesso a mais informação, para buscar conhecimento em outro lugar. Precisávamos também de muito mais grana para fazer rodar esse negócio. Reinvestir o lucro da empresa não era o suficiente. Não se a nossa intenção fosse realmente ganhar escala. E a ideia continuava sendo vender a um preço que coubesse no bolso do dono de um pequeno negócio. A gente precisava de muito mais grana do que estávamos imaginando. Precisávamos de um investidor.

Pensa só… o mercado brasileiro tem 20 milhões de empresas. A Europa tem 24 milhões de empresas. Os Estados Unidos, 29 milhões. É grande o suficiente para a ContaAzul ter a ambição de ser a maior do mundo nesse segmento. E a gente acredita que é possível. Mas sem um empurrão financeiro, não daria para atingir a velocidade correta para ganhar o mercado num timing correto. Tinha que crescer muito rápido. O melhor empreendedor pode ser aquele que constrói uma empresa de milhões de dólares sem ter tido um investidor. É possível. Mas nem todo mundo consegue isso. Entendendo isso, a gente viu que ia operar nos primeiros anos com queima de caixa, mas para sustentar o crescimento.

 

1º brasileira na 500 Startups

Na Tecnosystem, conheci João Augusto Zaratine, com quem havia trabalhado. Ele passou a ser o terceiro fundador da ContaAzul e tem um papel importante nessa parte da história.

O João foi passar um tempo em São Paulo para ver o que estava acontecendo no setor de startups por lá. Para conversar com outros empreendedores, talvez trazer um projeto legal para a ContaAzul, enfim, para aprender. Um dia, ele voltou dizendo que uma aceleradora americana muito legal iria para São Paulo e que a gente deveria conhecer. Ele falava da 500 Startups que, na época, ficava entre as três melhores dos EUA. Fomos pra São Paulo, conhecemos eles e apresentamos nosso projeto de negócio junto com outros grupos. A nossa ideia de negócio não era “cool” como a das outras startups que estavam se apresentando. Era um software de gestão para pequenas empresas. Mas a gente tinha atrativos interessantes, como um mercado potencial muito grande.

Nosso projeto recebeu um aporte de 50 mil dólares. A ContaAzul foi a primeira startup brasileira a participar do seleto processo de aceleração que a 500 Satrtups oferecia no Vale do Silício. Ao mesmo tempo, foi um momento difícil da minha vida pessoal, pois minha filha era recém-nascida e precisei ficar quatro meses morando fora. Foi bem desafiador.

Num dia, eu estava arrumando um chuveiro em casa. No outro, estava ajudando minha esposa a mudar de cidade para ter a ajuda da mãe dela com o bebê enquanto eu estivesse fora. Eu não sabia o que ia acontecer. Poderia dar tudo certo ou tudo errado.

 

No Vale do Silício, Califórnia

Chegamos ao Vale do Silício com a percepção de que nosso produto já estava pronto. Quando entendemos de verdade o que era design, porém, ficou claro que o que tínhamos não era o suficiente. Em poucas palavras, estava uma droga.

No primeiro mês, trabalhamos dia e noite em design para simplificar nosso software. O segundo mês de trabalho foi concentrado em testes de marketing (anúncios na mídia paga, ver o que acontece, como desenvolve), em fazer SEO para alcançar mais pessoas, começar a gerar demanda. Isso começou a funcionar, já tínhamos um volume grande de gente interessada.

Os 50 mil dólares foram investidos em testes. Ganhamos sincronia: o Sardagna se concentrou no produto, programava o software da ContaAzul; o João tinha a cabeça voltada para marketing, principalmente digital e de performance; e eu me encarreguei da visão de negócio. A partir daí o dinheiro começou a entrar.

No Vale, também entendemos melhor como funcionava uma distribuição em larga escala. Ganhar escala era o que precisávamos com mais urgência. Foi muito importante também passar a enxergar a companhia por meio de métricas. Afinal, uma empresa de internet tem volume de informação grande baseado em números. Essas são algumas características-padrão em startups nos EUA que conseguimos absorver.

 

Vinicius Roveda, Jose Carlos Sardagna e João Zaratine - Fundadores da ContaAzul
Vinicius Roveda, Jose Carlos Sardagna e João Zaratine – Fundadores da ContaAzul

Vinicius Roveda Gonçalves: 
Vinicius é CEO e um dos fundadores da ContaAzul. Formado em Ciência da Computação pela Universidade do Estado de Santa Catarina, o gaúcho criou, junto com seus sócios, um software simples e barato para ajudar pequenos e microempresários na gestão de seus negócios. Num mercado interno dominado por grandes empresas de software – que faturavam com venda de serviços -, ele conseguiu emplacar um produto. E atendeu muito bem à necessidade latente de um segmento em expansão no Brasil.

 

ContaAzul:
A ContaAzul é um sistema de gestão online para pequenos e microempresários. Fundada por Vinícius Roveda Gonçalves, José Sardagna e João Zaratine, existe desde outubro de 2011 e tem sede em Joinville, no estado de Santa Catarina. Foi a primeira startup brasileira a participar do programa de aceleração da norte-americana 500 Startups, no Vale do Silício (EUA), e conseguiu cravar fundo as unhas no mercado brasileiro de softwares de gestão para empresas, tradicionalmente dominado por multinacionais. Em seu sexto ano de operação, a ContaAzul ainda está muito perto dos 100% de crescimento anual. Em um ano, deve alcançar as marcas de 300 funcionários e mais 100 milhões de reais de faturamento. Ela faz parte do grupo de startups brasileiras com mais potencial para um IPO.

  


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