Entrevista com Vinicius Roveda, fundador e CEO da ContaAzul – Parte 1

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O caminho até o sucesso é repleto de obstáculos. Mas ultrapassá-los fica mais fácil conhecendo a experiência de quem já fez o trajeto. Por isso, a Brazil Venture Capital (BVC) publicará algumas histórias de pessoas que venceram os desafios oferecidos pelo mercado brasileiro, e que se tornaram referências para novos empreendedores.

A seguir, você encontra o primeiro dos três capítulos sobre a empreitada de Vinicius Roveda, fundador da ContaAzul.

Vinicius Roveda, fundador e CEO da ContaAzul
Vinicius Roveda, CEO da ContaAzul

Vinicius Roveda Gonçalves: 
Vinicius é CEO e um dos fundadores da ContaAzul. Formado em Ciência da Computação pela Universidade do Estado de Santa Catarina, o gaúcho criou, junto com seus sócios, um software simples e barato para ajudar pequenos e microempresários na gestão de seus negócios. Num mercado interno dominado por grandes empresas de software – que faturavam com venda de serviços -, ele conseguiu emplacar um produto. E atendeu muito bem à necessidade latente de um segmento em expansão no Brasil.

 

ContaAzul:
A ContaAzul é um sistema de gestão online para pequenos e microempresários. Fundada por Vinícius Roveda Gonçalves, José Sardagna e João Zaratine, existe desde outubro de 2011 e tem sede em Joinville, no estado de Santa Catarina. Foi a primeira startup brasileira a participar do programa de aceleração da norte-americana 500 Startups, no Vale do Silício (EUA), e conseguiu cravar fundo as unhas no mercado brasileiro de softwares de gestão para empresas, tradicionalmente dominado por multinacionais. Em seu sexto ano de operação, a ContaAzul ainda está muito perto dos 100% de crescimento anual. Em um ano, deve alcançar as marcas de 300 funcionários e mais 100 milhões de reais de faturamento. Ela faz parte do grupo de startups brasileiras com mais potencial para um IPO.

  

O melhor mercado do mundo

O Brasil é um país enorme. Cheio de problemas. A ContaAzul escolheu resolver um deles, de olho num mercado de 20 milhões de pequenas e microempresas (PMEs): parte importante desse oceano de companhias nascentes morre antes de completar cinco anos no país, sobretudo, pela falta de planejamento e gestão do negócio Nosso produto: uma plataforma simples e fácil de usar, em nuvem, na qual o dono do negócio rapidamente organiza e tem mais controle da sua empresa, tudo isso por um preço que cabe no bolso da pequena empresa.

No fim da primeira década dos anos 2000, só as grandes companhias do mercado tinham essa questão melhor resolvida, já que o preço final dos softwares oferecidos por gigantes como a Totvs considerava também o serviço prestado por elas. Nosso software seria o mais simples possível de usar, autoexplicativo, sem necessidade de treinamento. Nossa aposta foi investir em design. Seria uma quebra na dinâmica da indústria de software, na qual os serviços prestados respondem por parte importante do faturamento.

Mas juntar o simples com o barato num mesmo produto leva tempo e dinheiro. E muita coisa deu errado antes de acertarmos.

 

Infância e Faculdade

Cresci em Soledade, cidade pequena do Rio Grande do Sul de 20 mil habitantes.

Minha avó, dona Orfila, era dona de uma loja que começou com uma livraria, depois transformada em bazar. Vendia roupa, calçados, brinquedos… Chegou a ser uma das principais lojas da cidade. Lembro-me dela cuidando para ter tudo organizado, tratando muito bem dos clientes. Era comum também que, durante o almoço, ela, meu avô e minha bisavó conversassem sobre a rotina de trabalho – fui criado nesse meio. Lá por volta dos 10 anos de idade, cheguei até a ajudar no caixa da loja durante as férias escolares. Gostava de trabalhar com ela. E, embora não tenha sido calculado, vejo que esse passado como determinante para o que escolhi para a minha vida.

Nessa época eu já gostava muito de computador. Meu pai trazia do banco em que trabalhava alguns modelos bem antigos, e comecei a aprender a programar lendo manuais. Ficava muito tempo mexendo, descobrindo coisas. Era o começo da internet no país. Na verdade, nem era internet ainda, era BBS. Eu pensava em fazer odontologia, medicina, sei lá… Até que um dia um amigo disse: “Cara, você passa o tempo todo na frente do computador, por que não faz Ciência da Computação? ” Fez todo sentido.

Em 1999, fui para Joinville estudar Ciência da Computação na Universidade do Estado de Santa Catarina. Era um dos poucos lugares onde o curso era noturno, e não integral, como na maioria das faculdades. Precisava trabalhar, meus pais não teriam condições de me sustentar por muito tempo. Outro fator importante que me fez optar pela cidade: Joinville tem uma cultura de software muito forte.

 

Experiência no mercado

Em 2000 comecei o meu primeiro estágio numa empresa pequena chamada Softin. Foi importante principalmente porque a realidade da faculdade pode ser muito descolada da realidade do mercado. A questão da pressão na hora da entrega, por exemplo, a gente só entende na prática. Foi um projeto muito bom, construímos um software do zero.

Minha entrada no mercado veio por indicação do coordenador da universidade, a pedido do dono da empresa. Três alunos foram indicados por ele para montar uma equipe. José Carlos Sardagna era um deles. Foi quando nos conhecemos e, desde então, trabalhamos juntos de alguma forma. Juntos, fundaríamos a ContaAzul.

Depois de três anos na Softin e nove meses em uma outra empresa do setor, a Gesplan, fui para a Tecnosystem, onde tive o meu maior contato com tecnologia até então. A empresa fazia software de caça níquel – a lei permitia essa atividade no Brasil. Estruturei um time todo lá, que cuidava dos softwares das máquinas conectadas na época.

 

É hora de fazer um MBA

Ali comecei a me interessar muito mais por negócios, e percebi que estava na hora de fazer um MBA para entender mais do assunto. Me formei na faculdade e já emendei o curso na Fundação Getúlio Vargas (FGV), com o objetivo de compreender melhor os diretores com quem lidava diariamente. Tinha de convencê-los de algumas coisas, mas não estava conseguindo falar a mesma língua deles.

Muitas das decisões eram tomadas e eu, naturalmente, não entendia o porquê. Aquilo me incomodava. Meu conhecimento era mais técnico, precisava de uma visão mais estratégica. Diversas situações do dia a dia me mostravam essa necessidade. O MBA me ajudou a questionar características estruturais nas empresas com as quais trabalhei, passei a me desprender do modelo tradicional de gestão. Me ajudou também a me enxergar melhor: entendi que era um programador bom, mas ainda não excelente, e que eu tinha habilidade para lidar com pessoas.

Não achava que aqueles quadros nas paredes com “Missão, Visão e Valores” bastassem para que esses valores fossem assimilados pelos funcionários. Não que a cultura da empresa estivesse errada. Mas eu queria focar em transparência e no envolvimento das pessoas. Um livro que marcou esse momento da minha vida foi “Você Está Louco”, do Ricardo Semler. Conheci um modelo diferenciado de gestão.

 

Um problema a resolver no mercado

Na época do MBA, conversava bastante aos fins de semana com familiares da minha esposa. Muitos deles, donos de pequenos negócios. Um tema recorrente em nossos encontros eram softwares que pudessem ajudá-los no controle e na organização de suas empresas. Fui pesquisar e só encontrei programas antigos, difíceis de instalar, de aprender a mexer, as informações eram perdidas no processo… O que existia no mercado não resolveria o problema deles.

Hoje ainda, para se ter uma noção, só 22% das pequenas empresas no Brasil usam algum tipo de software de gestão. No fim da primeira década dos anos 2000, se o pequeno empresário tivesse alguma coisa numa planilha já era demais. Na família da minha esposa, por exemplo, ninguém usava.

Ainda por volta de 2008, comecei a prestar mais atenção também no que estava sendo feito fora do Brasil. A Xero, que havia começado na Nova Zelândia dois anos antes, focada em software para o pequeno negócio, já falava em criar uma solução diferente para o setor, em nuvem. A empresa norte-americana Intuit, a maior do mundo hoje, propunha o mesmo. Era questão de tempo para acontecer no Brasil, e eu queria fazer aquilo.

 

Entrando com tudo

Convenci o Sardagna de que o projeto tinha futuro e ele topou começar a startup comigo. Mesmo com ele de mudança para Curitiba (PR), tocamos em frente. Ele lá, eu em Joinville, trabalhávamos durante o dia em nossos empregos para, de noite, pelo Skype, desenvolvermos a primeira versão do que hoje virou a ContaAzul.

As coisas aconteceram de maneira natural. Quando surgiu o primeiro cliente, uns seis meses depois de começar o projeto, pedi demissão da Tencosystem. O Sardagna já estava em Curitiba e eu disse: “Cara, você continua trabalhando aí e, se der tudo errado, você paga a minha comida”. Ele topou e eu saí do emprego.

Depois de um ano de trabalho, não deu certo. A gente havia criado um produto da nossa cabeça sem entender a dinâmica do mercado. Foi um grande aprendizado, mas fiquei naquela situação: minha grana tinha acabado, tinha deixado meu emprego. Uma sinuca de bico, né? O que fazer?


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