Entrevista com Edgar Diniz, fundador do Esporte Interativo Parte 3

postado em: Edgar Diniz, Empreendedor | 0

Hoje em dia, não é mais tão difícil para um empreendedor iniciante buscar as ferramentas necessárias para o desenvolvimento do seu negócio. E o caminho pode ser ainda mais fácil aprendendo por quem já o percorreu.

A seguir, leia a última parte da entrevista que a BVC fez com Edgar Diniz, fundador do Esporte Interativo.

 

Precisamos da TV paga

Não foram poucas as batalhas que o Esporte Interativo teve de vencer para se tornar um canal independente. Ainda havia muito a ser feito.

O crescimento do número de assinantes de TV por assinatura era bem relevante no país. Ficava cada vez mais claro que não entrar nesse mercado poderia ser um empecilho ao nosso negócio. Começamos a sofrer um forte bloqueio da concorrência – em especial, da TV Globo, uma das nossas primeiras clientes, parceira de várias outras épocas. Por meio da Globosat, braço de TV paga da Globo, o grupo tinha direito de vetar canais concorrentes na NET e na SKY, as maiores operadoras de TV paga no Brasil. E foi exatamente isso que ela fez: vetou o Esporte Interativo. Não conseguimos entrar na grade nem de graça.

Precisávamos de formas alternativas para disseminar nosso conteúdo, e a internet foi a principal. Em 2012, a Netflix já fazia sucesso nos Estados Unidos com modelo over the top. Fomos os primeiros a lançar o serviço no Brasil, com o EI Plus. O canal de streaming norte-americano entrava no país um ano depois.

Sócio estratégico trouxe poder de barganha

Contratamos o Goldman Sachs para nos ajudar a trazer um sócio estratégico para o Esporte Interativo. No meio de 2013, a Turner virou sócia minoritária da empresa, com 37% de participação na companhia. O investimento foi de 70 milhões de reais. Precisávamos de capital para realizar investimentos necessários na época, como migrar para a tecnologia HD. E a Turner poderia nos ajudar na negociação com as operadoras.

Não foi como imaginávamos. A resistência das empresas permanecia, mesmo com a entrada da Turner. Precisávamos de um plano mais agressivo, como a compra dos direitos exclusivos da Champions League em 2014. Até então, a gente só podia transmitir um jogo por rodada em TV aberta. E sem exclusividade! Mas essa estratégia sairia mais caro e uma nova grande captação não era viável naquele momento. Fazia mais sentido vender 100% da Esporte Interativo para a Turner. E foi o que fizemos. Não faria sentido para nós nem para a Turner ficarmos como minoritários na empresa.

Eu adoraria não ter tido que depender das TVs por assinatura para chegar até o público. Mas não tinha como ser competitivo sem estar na NET e na SKY. Em alguns anos, porém, acredito que isso seria possível. Se a internet tivesse crescido no Brasil numa velocidade que nos permitisse tal feito, talvez nosso destino tivesse sido outro.

Virou o jogo

Com a exclusividade da Champions League, ficou muito difícil para a NET e para a Sky explicarem pros assinantes a ausência do Esporte Interativo na grade. A pressão da demanda de usuários seria muito grande. Ambas tiveram que ceder – primeiro a NET, depois a Sky.

Nos anos que se seguiram, tivemos mais notícias boas: em 2013, conseguimos retomar a Liga do Nordeste, uma grande vitória de uma briga que durou dez anos na Justiça.

Tudo novo de novo

Vendemos 100% da empresa em fevereiro de 2015, mas continuei lá até o ano seguinte. Depois disso, senti vontade de começar um projeto novo e me mudei com a minha família para os Estados Unidos, para ficar mais próximo do Vale do Silício. Sempre tive o sonho de conhecer aquele ecossistema, me aprofundar, entender as aceleradoras, os fundos de venture capital, conhecer novos empreendedores. Para começar com a mão na massa, fiz alguns investimentos pequenos em startups, os quais venho acompanhando. Também estou trabalhando no desenvolvimento de uma nova empresa. A ideia, em termos genéricos, é ajudar as entidades esportivas a lidarem com uma nova realidade: a distribuição de vídeo passa a ser majoritariamente através de plataformas digitais.

Ainda com gás para empreender e inovar, uma certeza fica: não quero trabalhar em multinacional. Pela minha experiência, posso dizer que a política interna de uma grande empresa pode ficar no caminho da liberdade e da autonomia para empreender. Você acaba tendo que ter um tempo de administração política muito grande, o que toma o tempo necessário para fazer as coisas acontecerem. Parte do sucesso do Esporte Interativo foi muito baseado em conseguir crescer sem deixar com que a política tomasse conta de nossos afazeres. Para as grandes empresas que eu vi, conheci e participei de alguma forma, essa parte é muito mal resolvida.

Ecossistema para startups no Brasil

Comparado com o que era na época que eu comecei a empreender, no fim dos anos 90, podemos dizer que o Brasil tem hoje um ecossistema premium para o desenvolvimento de startups. Mas ainda estamos longe de um Vale do Silício, onde a mentalidade é muito diferente da brasileira.

A questão cultural ainda é muito forte para que as coisas sejam dessa forma. Vou dar um exemplo pessoal de como essa cultura funciona. Foi recebida com estranhamento por muita gente a minha decisão de sair da Turner. Tinha uma boa posição e bom salário, fui convidado para ser Diretor Geral da empresa no Brasil, mas recusei.  E, agora, em vez de procurar um emprego, estou focado em começar outro negócio do zero. Essa maneira de pensar não é vista com naturalidade no Brasil. No país, quase que existe a percepção de que o empreendedor é alguém que não conseguiu um bom emprego. Essa mentalidade é ruim. No Vale do Silício, a coisa mais normal do mundo é ver empreendedor criando empresa atrás de empresa, muitas dão errado, algumas dão certo.

Se o Estado atrapalhasse menos o empreendedor, já seria um bom começo para quebrar esse paradigma. Isso inclui, por exemplo, tirar as barreiras para criação de empresas, diminuir a burocracia e melhorar a estrutura tributária, absolutamente insana no Brasil.

Conselhos para quem quer começar

Antes de começar a empreender, procure ser realista em relação aos desafios que virão. É importante se preparar para viver uma montanha russa. A história do Esporte Interativo está longe de ser uma exceção quanto a isso. A gente teve de se reinventar diversas vezes, e estivemos perto de não conseguir honrar as nossas obrigações financeiras por mais de um episódio. Por outro lado, não existe sensação melhor na vida profissional do que ver o resultado do seu esforço, sobretudo quando você é guiado pela paixão. O que você faria mesmo que não fosse pelo dinheiro?

Algo que os fundos de venture capital falam no Vale do Silício é que têm dois tipos de empreendedores: the visionary and the mercenary (o visionário e o mercenário). Os maiores negócios são desse primeiro grupo. Normalmente, os negócios que começam com foco só em dinheiro acabam não sendo tão bem sucedidos em comparação àqueles que crescem a partir de sonhos e motivação.

3 principais mensagens para empreendedores

“Apesar das barreiras, o Brasil é um país com muita oportunidade. O país tem um mercado muito grande e muito mal atendido em vários setores. Sempre que existe problema e mal atendimento, existe demanda por solução e oportunidade de negócios.”

“Ainda com gás para empreender e fazer coisas diferentes, uma certeza fica: não quero trabalhar numa empresa grande e burocrática. Pela minha experiência, posso dizer que a política interna de uma grande empresa pode ficar no caminho da liberdade e da autonomia para empreender.”

“Antes de começar a empreender, é muito importante ter uma consciência realista dos desafios que te esperam. É importante se conhecer bem para se preparar para viver uma montanha russa.”

Edgar Diniz
Edgar Diniz, Fundador do Esporte Interativo

Edgar Diniz:
Edgar Diniz sempre pensou em ser empreendedor. Queria trabalhar com esporte, e não se acomodar numa grande empresa. Foi em bancos de investimento onde começou sua experiência profissional, no início dos anos 90. Lá, apesar de não trabalhar diretamente com o mercado esportivo, passou a enxergar melhor dois mundos que não se comunicavam muito bem: o dos profissionais que falhavam em demonstrar para patrocinadores como poderiam gerar valor; e o dos patrocinadores que deixavam de aproveitar o esporte como ferramenta de marketing. Aos 29, largou tudo para ajudar a solucionar essa questão empreendendo. O caminho o levou à criação do Esporte Interativo, que hoje concorre na cobertura de eventos esportivos com os maiores e mais tradicionais grupos de comunicação do Brasil.

 

Esporte Interativo:
Além de aproximar grandes times brasileiros de futebol de patrocínios, o Esporte Interativo ganhou improváveis batalhas com gigantes do setor brasileiro de transmissão televisiva e confederações brasileiras de esportes. De olho em lacunas no mercado de marketing esportivo e de transmissão do país, foi fundado em 1999 com o nome de TopSports, bem antes de a internet ser um importante meio de disseminação de conteúdo. Isso fez toda a diferença. Como canal, começou na TV aberta, abriu seu caminho pelos meios digitais até o mercado de TV a cabo e passou a concorrer com as maiores. Em 2013, aliou-se à norte-americana Turner (da gigante Time Warner) para ganhar fôlego no segmento. Em 2015 a Turner comprou 100% do negócio. Hoje, está na TV aberta, paga e oferece também seu conteúdo diretamente ao consumidor via internet..

   


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