Entrevista com Pablo Cavalcanti, fundador da Inmetrics
Parte 1: Conhecendo os algoritmos

postado em: Empreendedor, Pablo Cavalcanti | 0

Nesta série da Brazil Venture Capital (BVC), você tem a oportunidade de aprender com os erros e acertos de quem alcançou o sucesso. O terceiro dos entrevistados é Pablo Cavalcanti, fundador da Inmetrics, empresa líder em eficiência para Tecnologia da Informação (TI) na América Latina.

A seguir, veja a primeira parte da entrevista:

 

Pablo Cavalcanti do Inmetrics
Pablo Cavalcanti da Inmetrics

Pablo Cavalcanti:
A relação de Pablo Cavalcanti com os algoritmos vem de longa data. Apesar de ter ganhado mais intimidade com eles na faculdade de Ciência de Computação, aos 13 já gostava de computadores e queria ser como Bill Gates. Aos 15, já era um “hackerzinho” e ajudava o pai, vendedor, com a contabilidade dos negócios. Seu grupo de trabalho na faculdade foi o mesmo que o ajudou a fundar a Inmetrics, quatro anos depois da formatura. Começaram o negócio com 12,5 mil reais do próprio bolso e não precisaram de grandes investimentos iniciais para fazer a empresa crescer. Só de muito trabalho e horas sem dormir.

 

Inmetrics:
A Inmetrics fez 15 anos em 2017. Hoje, é líder em eficiência para Tecnologia da Informação (TI) na América Latina – além do Brasil, está na Colômbia e no Chile. Nos últimos três anos, cresceu mais ou menos 40% ao ano. Nos primeiros 9 anos de empresa, 85% ao ano. A Inmetrics atende os mais variados segmentos do mercado – de financeiro a varejo -, com uma equipe de mais de mil pessoas. Seu faturamento anual hoje é de 150 milhões de reais.

 

Eu sou um migrante. Nasci em Pernambuco e vim com a minha família para São Paulo aos 9 anos, em 1987. O termômetro marcava 10 graus quando descemos no aeroporto internacional de Guarulhos, num dia muito nublado. Olhei para o meu pai e disse: “a gente pode voltar?”. O frio era assustador para mim. A temperatura no inverno do Nordeste brasileiro gira na casa dos 20 graus. Mas não tinha muita escolha. Mudamos porque meu pai, vendedor, decidiu montar um escritório de representações na cidade.

Dois anos depois, já estabelecidos em São Paulo, pedi a meu pai um videogame. Ele disse que me daria só metade de um, e que eu teria de trabalhar para conquistar o resto. Topei o desafio e comecei a limpar banheiros, mais especificamente os do escritório do meu pai. Fui ganhando mais responsabilidades. Primeiro na faxina, depois como office boy e, em seguida, ajudei na contabilidade da companhia. Até que comecei a ir com ele nas reuniões de vendas.

A coisa mais importante na vida de qualquer pessoa é saber vender e saber se vender, dizia o meu pai, e ele queria me ensinar isso. Eu achava tudo divertidíssimo. Depois de me apresentar nas reuniões como seu filho, ele dizia que estava me ensinando e que eu ia ficar quietinho. Ficava ali sentado assistindo. Aí meu pai vinha perguntar o que eu tinha achado, se eu tinha entendido. E eu ficava refletindo naquilo.

Naquela época, pelos 11 anos, queria ser engenheiro eletrônico e comecei um curso a distância. Mas no segundo mês vi que não era para mim. Não conseguia entender porque um resistor tinha um código de cores em vez de vir escrito apenas 3 ohms. Meu pai me sugeriu, então, um curso de informática, cujo anúncio havia visto no jornal. Eu nem sabia direito o que era computador. Tinha visto uns dois na vida, um deles na escola. Mas me pareceu boa ideia. As aulas de computação eram todo sábado, no largo São Francisco. Depois do primeiro programa cursado, já sabia que queria trabalhar com isso. Eu comando uma máquina e ela faz o que eu quero? Comecei a gostar.

Aos 13 anos, ganhei um livro chamado Hard Drive, a primeira biografia do Bill Gates. Enlouqueci, devorei esse livro. Passei a querer trabalhar com tecnologia e a cultivar outro sonho: ser o homem mais rico do mundo. Ainda bem que o tempo dá um pouco de maturidade para a gente, baixando nossas expectativas…

Descobri que o filho de uma vizinha minha do Pari, onde eu morava, tinha uma empresa de tecnologia na Mooca, bairro vizinho. Fui fazer uma visita para conhecer. Lá, descobri que só contratavam ex-alunos da Escola Técnica Federal de São Paulo (ETFSP), e eu não perdi tempo. Fiz um ano de cursinho e entrei na ETFSP com a intenção de ser o primeiro aluno da sala – o que se concretizou já no primeiro ano. Sempre fui muito competitivo. Gostava de nadar e tinha uma fissura em vencer. No primeiro ano do colégio técnico eu já programava melhor que os professores. E não falo isso com arrogância não! Gostava tanto do assunto, e prática era o que não faltava.

Nessa mesma época, meu pai resolveu informatizar os negócios e comprou o primeiro computador para a empresa dele: um 386 DX40 (topo de linha na época).

Me trancava no quarto na sexta-feira à noite e só abria a porta na segunda-feira de manhã. Ficava tentando aprender, trabalhando sem parar, lia bastante. Naquele tempo era muito mais difícil ter acesso à informação. Não tinha internet, os livros não chegavam ao Brasil. Comprávamos o que tinha. Devorei tudo o que consegui e, em um ano, com 14 para 15 anos, eu já era um “mini-hacker”.

Paralelamente a isso, um professor da escola técnica que havia feito ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) me disse que essa era a melhor escola de computação do Brasil. Encasquetei com isso e estudei muito, porque tinha um déficit enorme. No colégio técnico, não tive algumas matérias exigidas. Comecei a participar da Olimpíada de Matemática. Com 16 para 17 anos, minha vida era uma loucura. Durante um ano acordava às 5 da manhã todos os dias e chegava em casa meia noite e meia.

 

A pergunta decisiva

No cursinho preparatório, conheci pela primeira vez um computólogo, que é o profissional formado em ciência da computação. Esse cara era meu professor, e organiza até hoje a Olimpíada Internacional de Matemática no Brasil. Quando eu descobri que ele tinha feito computação, grudei nele. Disse que estava fazendo um curso preparatório para o ITA. E ele me fez uma pergunta decisiva para meus próximos passos: “mas você gosta de software ou de hardware?”. “Software”, respondi. E ele disse que meu lugar não era no ITA, já que o melhor curso de computação do Brasil era da Unicamp.

Continuei estudando bastante. Terminei o colégio técnico e, em 1995, passei a ocupar uma das 30 vagas do curso de Ciência da Computação da Unicamp. Só era menos concorrido que o curso de Medicina. De novo, eu estava determinado a ser o primeiro aluno da sala.

 

O grupo da faculdade

Lembrei do Bill Gates, que se cercou de pessoas muito talentosas na faculdade, como o Paul Allen, com quem fundou a Microsoft. Assim como ele, eu precisava me cercar dos caras bons da minha sala – e tive muita sorte com isso! Os professores dizem que as turmas têm safras. E essa foi muito boa. Foi o mesmo ano em que entraram: Fabrício Bloisi, hoje CEO da Movile; Eduardo Thuler, CEO da Catho; e vários outros caras muito bons, como o Alexandre Junqueira, Vice-Presidente da Inmetris, que é meu sócio até hoje. Marcos Salles, que seguiu a carreira acadêmica e, atualmente, é professor da Escola Politécnica de Zurique, uma das pessoas mais inteligentes que eu já conheci.

Passei a faculdade toda pensando em empreender. E o grupo que fundou a Inmetrics era, no fundo, o grupo de trabalho na Unicamp: Alexandre Junqueira, Eric Daniel Mauricio, Gil Cesar Faria, Marcos Salles e eu. Gostava de trabalhar com eles. Sobretudo porque a gente tinha afinidade e um completava o outro.

No último ano da faculdade, cursamos uma matéria importante para o rumo que minha vida como empreendedor tomou: Análise de Algoritmos. Mas eu só fui perceber isso um tempo depois. É por causa dessa matéria – que envolve matemática pesada – que o curso de Ciência de Computação começa a perder soldados no segundo e terceiro ano. É aí que você entende a natureza matemática do que estava fazendo até agora. Fiquei fascinado por essa área de estudo da computação, e o professor que deu a matéria no último semestre da faculdade tinha uma veia de mercado muito forte, porque não dava aula o tempo todo. Também trabalhava na área de programação linear no mercado. Ele era um otimizador.

No lugar da prova, esse professor deu um desafio: construir a implementação mais rápida de um algoritmo famoso chamado de O Caixeiro Viajante. Imagine que você tem um roteiro de 20 cidades, e quer que o seu vendedor passe por cada uma delas uma única vez. Qual é o caminho ótimo para ele fazer isso passando, de preferência, no máximo uma vez pela mesma cidade? É o que tem de mais complicado para resolver. E o desafio dele foi justamente o de implementar os algoritmos mais rápidos para solucionar esse problema.

Me reuni com Junqueira e Marcos Salles, que foram fundadores mais tarde da Inmetrics. A gente trabalhou semanas e desenhou o melhor algoritmo da sala. Conseguimos implementar uma solução mais rápida que a média das soluções existentes. Ganhamos um dez redondo, e o professor me chamou para fazer mestrado com ele. E eu falei que não, porque ia montar uma empresa para fazer isso aí. Ou pelo menos era isso que eu achava que ia fazer…


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