Entrevista com Eduardo Henrique, cofundador da Movile
Parte 3: Podemos competir com os caras do Vale do Silício!

postado em: Empreendedor | 0

Nesta série da Brazil Venture Capital (BVC), você tem a oportunidade de aprender com os erros e acertos de quem alcançou o sucesso. O segundo dos entrevistados é Eduardo Henrique, fundador do Movile, dona de aplicativos bem-sucedidos, como PlayKids, iFood e Apontador no Brasil.

A seguir, veja a terceira parte da entrevista:

 

Podemos competir com os caras do Vale do Silício!

Em 2011 como gerente de inovação, trabalhei nos primeiros projetos para smartphones que a Movile fez. Para entender melhor o mundo do HTML 5 (código mais adequado para construir sites em dispositivos móveis), comecei a visitar o Vale do Silício. Fui ao primeiro evento em que o Facebook abriu suas APIs (em português, Interface de Programação de Aplicativos) de HTML5 para desenvolvedores. Participamos do primeiro Hackathon da história do Facebook para desenvolvedores mobile – e ganhamos! Eram 30 empresas competindo. Esse foi um fato muito marcante na história da Movile.

Mas aconteceu outra coisa muito legal naquele ano. Após o lançamento das APIs, Andreas Blazoudakis, um dos nossos fundadores e o cara mais criativo da empresa, idealizou um aplicativo chamado Meu Chip. Ele mostrava ao usuário uma lista com o nome de todos os amigos do Facebook que usaram o app, apontando o número do celular atualizado e a operadora de cada um. A galera do pré-pago adorou o serviço, porque mostrava a operadora dos seus contatos. Dava para saber, portanto, para quem ligar de graça! Conseguimos 3 milhões de usuários em 3 dias só usando as APIs do Face para fazer as notificações. Foi um dos maiores casos do ano de crescimento viral. Nesse momento, pensamos: podemos competir com os caras do Vale do Silício!

Em fevereiro de 2012, então, mudei para a Califórnia com a minha família, de mala e cuia. Aprender, estar próximo das empresas grandes e começar a entender como as coisas acontecem no Vale do Silício havia se tornado imprescindível. Havia chegado a hora de a Movile se reinventar mais uma vez.
Do SMS para os APPs

Entre 2007 até 2012, 100% do trabalho da Movile foi voltado para o mercado de VAS (value-added service ou serviços de valor agregado, na tradução livre). Em parceria com as operadoras, absorvemos a demanda do novo usuário que migrava da base GSM para a tecnologia de terceira geração em celulares. Posso dizer que executamos muito bem a consolidação desse segmento no Brasil. Mas o cenário já era outro: a gente precisava deixar de ser uma empresa de feature phones – celulares mais simples – para se transformar numa empresa pronta para a era dos smartphones e tablets.

Investimos bastante nessa transformação, fizemos um monte de tentativas. Muitas coisas deram errado no meio do caminho, mas conseguimos entrar no mundo dos aplicativos. Poucas empresas fizeram essa transição, do SMS ao APP, de forma bem-sucedida.

Lançamos mais de 20 projetos em 2012 e falhamos miseravelmente em praticamente todos, até que lançamos um app de vídeos para crianças chamado Canal Desenho. Demoramos somente 3 dias para desenvolver, e para nossa surpresa, as pessoas gostaram muito. Passamos a cobrar 9,99 dólares por mês para os usuários poderem ter acesso a todos os vídeos, e as pessoas passaram a pagar. Em Março de 2013 redesenhamos totalmente o aplicativo e lançamos o PlayKids, que hoje melhora a vida de 5 milhões de famílias em mais de 100 países.

As coisas mudam muito rápido hoje. É como o Fabrício sempre fala: “Provavelmente, os próximos bilhões de dólares que vamos gerar nos próximos anos virão de negócios que ainda nem existem”. E, de fato, grande parte do valor atual de mercado da Movile vem de negócios, há quatro anos, inexistentes. Não ficar na zona de conforto pode ser determinante para o sucesso de um negócio.

 

Respostas rapidas e dicas a empreendedores

O que ajudou a Movile a passar por tudo isso?

Apoiamo-nos bastante na cultura criada por nós – de foco em resultado, de sempre levantar a barra do time, de reinvestir nosso lucro o tempo todo e, sobretudo, de não ficar na zona de conforto. Não se acomodar nos ajudou a crescer, em média, 60% ao ano nos últimos oito anos.

Depois do sucesso, o que mudou?

Tivemos momentos de vitória em algumas batalhas, mas esses êxitos devem representar de 5% a 10% de nossas vidas. O resto é resolver problemas.

Aguentar decepções, tentar de novo, refazer planos. Empreendedores precisam se acostumar com a ideia de que, até darem certo, as coisas podem dar muito errado.

O sucesso da Movile só virá quando atingirmos o nosso maior sonho: melhorar a vida de um bilhão de pessoas com os nossos aplicativos.

Como o empreendedor, qual a sua relação com o dinheiro?

Tive liquidez pela primeira vez no ano passado, com 39 anos. Em 20 anos de profissão, esse foi meu primeiro “cash out” parcial.

Quando disse ter ficado 100% comprado no sonho do Fabrício ao virar sócio da Compera, não foi força de expressão – mais de 90% do meu patrimônio estão aplicados na Movile. Reinvestir dinheiro na companhia é parte importante da nossa cultura.

O que mudou depois de ultrapassar algumas barreiras importantes?

As metas aumentaram, bem como as expectativas, e os desafios são muito mais difíceis. Você precisa ser apaixonado pelo que faz, porque os problemas só vão aumentando. Receber um aporte é uma baita responsabilidade. O investidor, caso seja sério, ajudará você – mas também vai fazer cobranças.

Após 20 anos, o que acha do ecossistema para startups no Brasil?

Sou muito otimista em relação a empreendedorismo no Brasil, mas tenho pouca esperança na política para levantar o país. Acho que quem pode nos ajudar são justamente os empreendedores. Novos empreendedores que vão criar novos negócios e bilhões de dólares em valor de mercado. Outra coisa boa: temos hoje um mercado estabelecido de venture capital no país, investidores anjos e aceleradoras. Há 20 anos, eram pouquíssimos os casos de empreendedorismo. O mercado brasileiro amadureceu demais e seguirá crescendo.

O que ainda falta no mercado brasileiro de startups?

Em primeiro lugar, precisamos começar a ver mais vendas estratégicas de empresas, fusões e IPOs – alguns exemplos do que chamamos de “exits”( saídas). Quando esses movimentos são mais frequentes, surgem as histórias de sucesso que inspiram novos empreendedores.

A Movile tenta dar o exemplo ajudando no crescimento de outras empresas. Por exemplo, usamos toda a nossa experiência para ajudar o iFood a se tornar uma empresa grande.

Geramos inovação dentro de casa e ajudamos a acelerar o crescimento de empreendedores inovadores. Estamos retroalimentando a cadeia. No Vale do Silício, isso já acontece há mais de 60 anos.

Segundo ponto importante: o empreendedor brasileiro precisa parar de pensar pequeno. Em tudo que a Movile põe a mão, pensa em dominação global.

Queremos que o iFood seja a maior empresa de entregas de comida do mundo; o Playkids, a maior plataforma educativa. Não temos um plano menor do que esse.

Como lidar com gigantes como a Netflix?

É claro que é difícil. Mas tenho que levantar minha barra. Tenho que pegar meu time e falar assim: você tem que ser um engenheiro tão bom quanto o engenheiro do Netflix. Tem que pegar o funcionário e mandar para o Vale do Silício, para estudar com o cara do Facebook, da Amazon, dessas empresas.

O brasileiro costuma enfrentar tanto perrengue, os impostos são complexos e caros, a burocracia é grande… É tanta coisa para atrapalhar que a gente aprendeu a usar a criatividade. Se tivermos conhecimento técnico e pensarmos grande, não há porque não vir o sucesso.

Acha que brasileiro não consegue competir com a Boeing? É claro que consegue! E a Embraer? O pessoal do 3G também provou isso com a Ambev. Só tem um jeito de dominar o mundo: tentando.

Três mensagens principais para empreendedores

1) Pense grande;

2) Tenha resiliência, as coisas vão dar errado antes de dar certo;

3) Se você não for completamente apaixonado por ser empreendedor e por construir algo grande, não vai conseguir chegar onde quer.

 

Eduardo Henrique do Movile
Eduardo Lins Henrique

Eduardo Lins Henrique:
O brasileiro Eduardo Henrique fundou em 1998 uma das quatro empresas que se uniram até formar o que vamos chamar aqui de a “grande Movile”, resultado de algumas fusões e aquisições. Formado em Ciência da Computação e Propaganda e Marketing, Eduardo entendeu cedo que celular e propaganda tinham mais em comum do que muitos imaginavam há 10 anos. Hoje, ele é um dos responsáveis pela expansão da Movlie. Desde 2012, Eduardo lidera o desenvolvimento dos negócios da companhia no exterior e reside nos Estados Unidos. Agora radicado em Miami, viveu entre 2012 e 2017 na região do Vale do Silício, na Califórnia, centro mundial do mercado de tecnologia e inovação.

 

Movile:
Dona de aplicativos bem-sucedidos, como PlayKids, iFood e Apontador, a Movile foi fundada em 1998, mas só depois de 10 anos ficou mais parecida com a Movile que conhecemos hoje. A empresa brasileira cresceu, em média, 60% ao ano nos últimos 8 anos. Seus serviços – que vão de entrega de comida a venda de ingressos – atingem 120 milhões de usuários ao mês. A companhia tem um faturamento anual estimado em 800 milhões de reais, e está presente em sete países: além do Brasil, Argentina, Colômbia, México, Peru, Estados Unidos e França. O sonho da Movile é impactar a vida de 1 bilhão de pessoas – e ela tem tido bons incentivos para isso. Em 2017, recebeu seu maior aporte até então, de 53 milhões de dólares, do grupo sul-africano Naspers. Outro sócio de peso é o fundo Innova Capital, do empresário Jorge Paulo Lemann.

 


Deixe uma resposta