Entrevista com Eduardo Henrique, cofundador da Movile
Parte 2: Começa a “primeira” Movile

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Hoje em dia, não é mais tão difícil para um empreendedor iniciante buscar as ferramentas necessárias para o desenvolvimento do seu negócio. E o caminho pode ser ainda mais fácil aprendendo por quem já o percorreu. Por isso, a Brazil Venture Capital publicará algumas histórias sobre o caminho dos que alcançaram o sucesso em seus segmentos.

A seguir, leia a segunda parte da entrevista que a BVC fez com Eduardo Henrique, fundador do Movile.

 

Começa a “primeira” Movile

Num treinamento a executivos, em 2006, um dos alunos propôs uma parceria num novo projeto: uma empresa de mobile marketing. Enquanto eu conhecia bem o segmento e era formado em Publicidade e Propaganda, Terence Reis tinha uma agência. Já naquele ano, prevíamos que o celular se tornaria uma grande ferramenta de publicidade. E foi assim que, ao lado de Vicente Scivittaro, montamos a Movile.

Tínhamos ideias bastante inovadoras para a época, não foi nada fácil conquistar compradores. Nossos primeiros trabalhos envolviam um hardware importado da Inglaterra. Ele disparava conexões aos aparelhos celulares mais próximos para transferir diversos conteúdos via Bluetooth: ringtones, vídeos, wallpapers etc.

Dois destaques dessa fase foram um projeto para a Toyota, no Salão do Automóvel de São Paulo; e outro para Bradesco e Amex, patrocinadoras de uma turnê do Circo de Soleil no Brasil.

Graças a essa última experiência, por sinal, rodamos o Brasil todo. Passamos então a enfrentar menos resistência e, a partir daí, a tocar projetos ainda maiores.

Além da transmissão por Bluetooth, conseguimos uma tecnologia de envio de códigos de barras para celulares, usando um canal de telecom chamado EMS. Uma evolução do SMS, ela permitia o envio para celulares de conteúdos multimídia, como audiovisual.

Na sequência, fechamos um projeto com a operadora Claro – um importante trampolim –, quando a Movile já dava lucro.

Nessa época também conseguimos um apoio importante de um grande parceiro chamado Rafael Neves, também sócio de uma agência digital que atuou em parte como anjo investidor e parceiro de negócios na Movile.

 

Ninguém disse que ia ser fácil

A situação ficou um pouco difícil antes de alcançarmos alguma estabilidade. Terence, meu ex-aluno e então sócio, responsável pela área comercial da empresa, precisou seguir outro caminho.

Esse momento mostrou que é preciso conseguir fazer muita coisa com pouca gente. Apesar da dívida que já tínhamos, eu e Vicente juntamos todas as nossas economias e compramos a parte de Terence.

Era um passo muito arriscado. Profissionais mais conservadores do que nós dificilmente teriam ido em frente.

Ainda em 2007, Fabrício Bloisi, amigo da Unicamp, fundiu a Compera, startup fundada por ele, com a nTime, uma de suas rivais. No ano seguinte, ele recebeu um aporte do grupo de mídia sul-africano Naspers.

Foi aí que disse a Fábio Póvoa, outro colega da Unicamp e sócio da empresa, que que talvez fosse o momento de trabalharmos juntos. A Movile crescia rapidamente, e a Compera nTime estava em período de forte expansão.

Com apoio do Fábio, conversei com Fabrício e propus a ele que, se aceitasse comprar a Movile, eu poderia abrir a área de mobile marketing na empresa.

O projeto que havia feito para a Claro, que envolvia uma “experiência mobile” para os clientes da operadora, aproximou-nos da Compera nTime. Além disso, estava cansado de correr tanto risco, queria fazer parte de algo maior.

Estava em busca de sócios capazes de complementar meus pontos fracos. Após ótimas conversas com Marcelo Sales e Rafael Duton, fundadores da nTime, acertamos os detalhes e pouco tempo depois, a partir desses planos, surgiria a “grande” Movile.

Nesse momento, Vicente fez o “cashout” (retirou seu patrimônio investido na Movile) e saiu da sociedade, recuperando todo o investimento feito por ele. Mas, ainda assim, continuou trabalhando conosco
 
Sociedade com a Compera nTime vs. sociedade com o “falso” investidor

A aquisição da Movile pela Compera nTime foi bastante correta – diferentemente da experiência de seis anos antes, com o investidor mal-intencionado. Tudo foi acordado, colocado no papel e assinado.

Fui sabatinado pelos sócios da nTime e apresentei nosso plano de negócios sobre mobile marketing. O processo envolveu uma due diligence (diligência prévia), avaliação feita por empresas investidoras sobre a saúde financeira da companhia a ser adquirida. Tudo com muita transparência.

Passei então a fazer parte do sonho desse grupo de empreendedores, que era o de criar uma empresa muito grande, e virei diretor de mobile marketing.
Assim que definimos o deal, tive o prazer de conhecer Anderson Thess, na época Diretor de Negócio da Naspers e responsável pelo investimento em nossa empresa.

Ele tem um papel importante nessa história sobretudo pelo apoio à ideia de investir pesadamente em reinventar a empresa o tempo todo.
 
Mudanças e mais mudanças

Quando começava a tocar a recém-criada divisão de mobile marketing da empresa, em 2008, os impactos da crise do subprime nos Estados Unidos chegavam ao mercado brasileiro. Minha área foi uma das únicas a conseguirem apresentar o resultado esperado.

No início de 2009, no auge da crise, num só dia, demitimos 35% do pessoal. Lembro-me de mandar embora amigos com apenas três meses de contrato. Não foi fácil.

Depois dessa reestruturação, ainda naquele ano, montamos a primeira área de inovação dentro da Compera, onde trabalhei por dois anos. Já no final de 2010, Fabrício me mandou de volta para a área de negócios, na qual eu vendia pacotes de SMS (alerta sobre gasto no cartão de crédito, por exemplo) para bancos, como Bradesco e Caixa Econômica Federal; e para outras grandes empresas, como Google e TAM.

Naquele ano, baseados numa pesquisa de mercado, mudamos o nome da Compera nTime Yavox para para Movile – a “grande” Movile sobre a qual já falei. Esse foi só o começo para o nosso grupo.

 

Eduardo Henrique do Movile
Eduardo Lins Henrique

Eduardo Lins Henrique:
O brasileiro Eduardo Henrique fundou em 1998 uma das quatro empresas que se uniram até formar o que vamos chamar aqui de a “grande Movile”, resultado de algumas fusões e aquisições. Formado em Ciência da Computação e Propaganda e Marketing, Eduardo entendeu cedo que celular e propaganda tinham mais em comum do que muitos imaginavam há 10 anos. Hoje, ele é um dos responsáveis pela expansão da Movlie. Desde 2012, Eduardo lidera o desenvolvimento dos negócios da companhia no exterior e reside nos Estados Unidos. Agora radicado em Miami, viveu entre 2012 e 2017 na região do Vale do Silício, na Califórnia, centro mundial do mercado de tecnologia.

 

Movile:
Dona de aplicativos bem-sucedidos, como PlayKids, iFood e Apontador, a Movile foi fundada em 1998, mas só depois de 10 anos ficou mais parecida com a Movile que conhecemos hoje. A empresa brasileira cresceu, em média, 60% ao ano nos últimos 8 anos. Seus serviços – que vão de entrega de comida a venda de ingressos – atingem 120 milhões de usuários ao mês. A companhia tem um faturamento anual estimado em 800 milhões de reais, e está presente em sete países: além do Brasil, Argentina, Colômbia, México, Peru, Estados Unidos e França. O sonho da Movile é impactar a vida de 1 bilhão de pessoas – e ela tem tido bons incentivos para isso. Em 2017, recebeu seu maior aporte até então, de 53 milhões de dólares, do grupo sul-africano Naspers. Outro sócio de peso é o fundo Innova Capital, do empresário Jorge Paulo Lemann.

 


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