Entrevista com Eduardo Henrique, cofundador da Movile
Parte 1: Do começo conturbado ao início da Movile

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O caminho até o sucesso é repleto de obstáculos. Mas ultrapassá-los fica mais fácil conhecendo a experiência de quem já fez o trajeto. Por isso, a Brazil Venture Capital (BVC) publicará algumas histórias de pessoas que venceram os desafios oferecidos pelo mercado brasileiro, e que se tornaram referências para novos empreendedores.

A seguir, você encontra o primeiro dos três capítulos sobre a empreitada de Eduardo Henrique, fundador do Movile.

Eduardo é o segundo entrevistados desta série realizada pela BVC. Conhecer a história dessas pessoas, que superaram barreiras comuns aos novos empreendedores, pode lhe servir de inspiração. Nós da BVC, certamente, aprendemos bastante 🙂

 

Eduardo Henrique do Movile
Eduardo Lins Henrique

Eduardo Lins Henrique:
O brasileiro Eduardo Henrique fundou em 1998 uma das quatro empresas que se uniram até formar o que vamos chamar aqui de a “grande Movile”, resultado de algumas fusões e aquisições. Formado em Ciência da Computação e Propaganda e Marketing, Eduardo entendeu cedo que celular e propaganda tinham mais em comum do que muitos imaginavam há 10 anos. Hoje, ele é um dos responsáveis pela expansão da Movlie. Desde 2012, Eduardo lidera o desenvolvimento dos negócios da companhia no exterior e reside nos Estados Unidos. Agora radicado em Miami, viveu entre 2012 e 2017 na região do Vale do Silício, na Califórnia, centro mundial do mercado de tecnologia e inovação.

 

Movile:
Dona de aplicativos bem-sucedidos, como PlayKids, iFood e Apontador, a Movile foi fundada em 1998, mas só depois de 10 anos ficou mais parecida com a Movile que conhecemos hoje. A empresa brasileira cresceu, em média, 60% ao ano nos últimos 8 anos. Seus serviços – que vão de entrega de comida a venda de ingressos – atingem 120 milhões de usuários ao mês. A companhia tem um faturamento anual estimado em 800 milhões de reais, e está presente em sete países: além do Brasil, Argentina, Colômbia, México, Peru, Estados Unidos e França. O sonho da Movile é impactar a vida de 1 bilhão de pessoas – e ela tem tido bons incentivos para isso. Em 2017, recebeu seu maior aporte até então, de 53 milhões de dólares, do grupo sul-africano Naspers. Outro sócio de peso é o fundo Innova Capital, do empresário Jorge Paulo Lemann.

 

Tornei-me empreendedor por um acaso, quando ainda estava na universidade. Minha vida era uma loucura. Estava no terceiro ano do curso noturno de Ciência da Computação, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); e, de manhã, cursava o segundo ano de Marketing na Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo (ESPM-SP), a 100 Km dali. Como eu morava em Campinas, tinha que pegar um ônibus às 5 da manhã para chegar a tempo da primeira aula na ESPM – na Vila Mariana, zona sul da capital de São Paulo. Eu almoçava lá, pegava todo o trajeto de volta e ia para casa dormir um pouco. À noite, com o carro da minha mãe, ia para a Unicamp.

No meio dessa confusão toda, comecei a estagiar na desenvolvedora de software de um amigo, colega de Unicamp, o Eduardo Thuler. Hoje, esse cara é CEO da Catho (grande portal brasileiro de recrutamento). Éramos em três na Infosoft: eu, outro estagiário e o Eduardo, dono da startup. Um dia, ele disse que havia recebido uma proposta para ser sócio de uma empresa maior em Alphaville (região Metropolitana de SP), e nos ofereceu a InfoSoft. Eu e meu outro colega aceitamos a proposta. E foi assim que, em 1998, praticamente ganhamos uma empresa de presente. E a Infosoft virou Infosoftware.

2002: o pior e o melhor ano da vida

A empresa foi crescendo e, em 2002, recebeu o aporte de 150 mil reais de um investidor anjo, o Vicente Scivittaro, grande amigo da ESPM. Só que 2002 foi um ano horroroso para o mercado. ganhou a eleição presidencial no Brasil, o dólar foi a quatro reais e a gente quebrou, porque as empresas pararam de demandar desenvolvimentos de software. A situação ficou ainda mais difícil quando a incubadora onde ficava nossa empresa foi assaltada. Os ladrões roubaram mais de 25 dos nossos computadores. Foi aí (seis meses depois de o Vicente fazer o aporte na empresa) que um investidor propôs comprar a Infosoftware – que, na época, já atuava em projetos mobile (para Palm Tops, lembra dos Palms?). Nesse plano, eu e o Vicente seríamos sócios de uma empresa maior.
Quebrado, aceitei fazer parte do negócio. O problema foi que o investidor não só não nos pagou, como também absorveu os ativos da minha empresa, deixando-me os apenas os passivos. Chegou uma hora em que eu estava completamente enforcado, com uma dívida de 300 mil reais – o que representava um ano e meio de faturamento da Infosoftware –, e descobri que o cara estava bastante mal intencionado em relação ao nosso futuro. Como tudo estava no meu nome, precisei tomar a decisão difícil: assumir a dívida, mandar todo mundo embora e começar a trabalhar para pagar esse rombo. A Infosoftware empregava de 10 a 15 pessoas. Fui trabalhar de casa comandando só dois funcionários: ambos também em home-office.

Sobre o “falso investidor”, o que eu faria diferente?

Quando você é novo, inexperiente e está num momento difícil, sob pressão, tende a procurar opções mais imediatistas, mais rápidas e mais fáceis. Esse investidor brasileiro tinha contrato com uma petrolífera, dona de uma rede enorme de postos de gasolina, e precisava de mão de obra capacitada e qualificada para desenvolver projetos mobile. Ele prometeu que todas as empresas que estava comprando seriam suas sócias. E ele tinha o contrato mesmo! O problema é que só beneficiava a ele. O cara não pagou ninguém. Só queria levar vantagem. Na prática, como ficávamos com os passivos e ele com os ativos, todo o faturamento das empresas ficava com ele. Prometia que iria liquidar as empresas e encerrar as operações, mas não encerrava. Ia enrolando. E, como eu estava numa situação frágil, fui aceitando. Não esperei estar tudo assinado para começar a trabalhar e me envolver nos projetos dele. Fui de boa-fé.

Uma lição grande que tiro da experiência: formalize tudo, feche negócios apenas com pessoas que fazem questão de assinar documentos e, realmente, colocar o combinado no papel. Não postergue para oficializar as coisas – pode ser tarde.

Como nos recuperamos dos solavancos de 2002?

Senti-me deprimido por duas vezes na vida. Essa época, logo depois do caso do investidor mal-intencionado, foi uma delas. Tive que vencer esse obstáculo trabalhando um dia de cada vez, valendo-me da credibilidade que tinha. Contei com o apoio desses dois funcionários, que ficaram um tempão sem receber salário e continuaram trabalhando comigo, ajudando-me a reerguer a empresa. Contei com o apoio do Vicente também. Trabalhava um dia atrás do outro, com persistência e resiliência para continuar a trajetória.

Dividia meu dia entre dar aulas noturnas numa faculdade em Nova Odessa, perto de Campinas, e treinamentos de projetos mobile para empresas. Como diminui muito a operação da Infosoftware, foquei em alguns contratos fixos e consegui equalizar a situação. Uma coisa importante: parei de afundar, conseguia me manter financeiramente com as aulas. Nessa época, trabalhava 15 horas por dia. De dia trabalhava nos projetos, à noite era professor. Em dois anos, consegui recuperar tudo e pagar todas as dívidas.

Outra coisa ajudou a me manter: tornei-me bolsista. Consegui aprovar um projeto no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Naquela época, observava a educação a distância em dispositivos móveis (mobile learning) como uma grande oportunidade. Esse recurso também permitiu com que as pessoas que trabalhavam comigo, ajudando no projeto, se mantivessem. Em 2003, consegui até contratar alguns estagiários.

O projeto que virou o jogo

Em 2004, fechei um grande contrato com a Brasil Ferrovias. Rendeu-nos mais ou menos meio milhão de reais. O serviço era migrar a plataforma de correio eletrônico usada internamente pela empresa, Sendmail, para Lotus Notes, software da IBM. Ganhei dinheiro com a venda do software, na sua implementação e no treinamento de mais de mil funcionários. Era muito dinheiro para mim à época. E foi isso que virou o jogo. Esse dinheiro não só me ajudou a quitar a dívida de 300 mil reais, como permitiu que eu abrisse a minha terceira startup: a empresa de mobile marketing Movile.

Mas, sobre isso, conversamos numa próxima oportunidade. Até lá!


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