Entrevista com Romero Rodrigues, fundador do Buscapé
Parte 5: Saída do Buscapé, mensagem a empreendedores

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Hoje em dia, não é mais tão difícil para um empreendedor iniciante buscar as ferramentas necessárias para o desenvolvimento do seu negócio. E o caminho pode ser ainda mais fácil aprendendo por quem já o percorreu. Por isso, a Brazil Venture Capital publicará algumas histórias sobre o caminho dos que alcançaram o sucesso em seus segmentos.

A seguir, leia a última parte da entrevista que a BVC fez com Romero Rodrigues, fundador do Buscapé.

 

Saída do Buscapé

O quarteto decidiu, então, que já era hora de mudar a parceria. Nesse momento, ficou clara a mudança de expectativa entre os fundadores e os investidores.

Romero e seus sócios entregaram o que prometeram, mas ainda queriam crescer mais. Já os bancos não estavam na mesma sintonia. Em uma nova rodada de investimentos, o fundo Great Hill Partners comprou a participação do Unibanco, do Merrill Lynch e da E-platform por 40 milhões de dólares.

Ficaram apenas “fundadores” e o Great Hill executando esse plano de crescimento. “O comparador de preços continua bastante lucrativo e a gente usa todo o caixa gerado para novas aquisições e novos projetos”.

Em 2006, o Buscapé ainda compraria o Bondfaro, sua principal concorrente no mercado.

Em 2007, o site comprou a e-bit, empresa de pesquisas sobre hábitos no e-commerce. Em 2008, iria adquirir 85% da empresa de gerenciamento de pagamento online Pagamento Digital e 70% da FControl, fabricante de software de gerenciamento de risco.

Ainda em 2007, conheceu o Naspers, grupo sul-africano de mídia. “Foi um namoro rápido”, diz Romero.

Em 2008, eles voltaram com mais ímpeto: “Vieram dizendo que queriam comprar o Buscapé, mas o valor oferecido era metade do que acabou sendo.

Um ano depois, em 2009, eles bateram na nossa porta de novo e estávamos 3 vezes maiores do que imaginávamos – e eles fizeram uma proposta agressiva”.

Desde 2000, com o estouro da bolha, o mercado brasileiro ficou um bom tempo sem ter notícias relevantes sobre consolidação do setor de empresas ponto.com – até a compra do Buscapé pelo Naspers, em 2009. O grupo de mídia sul-africano comprou 91% das ações da companhia de comércio eletrônico por US$ 342 milhões – a terceira maior transação da história da internet no Brasil à época.

“Aí não teve o IPO e eu já estava convencido de que não era o melhor mesmo, nem para aos founders, nem para os investidores. A Naspers se mostrava um parceiro muito legal para o Buscapé”.

 

Mensagens e dicas a empreendedores

 

Como selecionar os investidores?

Algo que Romero sempre procurou fazer com investidores é alinhar interesses e expectativas. “A E-Platform tinha um ovo só: nós. Quando entrou o Great Hill, era muito claro também qual eram nossos objetivo e expectativa.

Escolher o sócio certo tem uma parte que é exercício, que é você fazer a pesquisa de mercado”. De acordo com Romero, o empresário brasileiro faz muito pouco isso.

“Tem o teste que é o teste do aeroporto: você encontrou esse cara e você terá que ficar 6 horas ao lado dele conversando porque o aeroporto fechou. Isso é uma notícia boa ou ruim? Se for ruim, repense. Porque sete anos de parceria é mais do que muitos casamentos. ”

 

Refletindo o caminho, faria de novo? Como faria diferente?

“Foi muito sofrido, mas faria tudo de novo com certeza”, diz Romero, não sem antes garantir que foi feliz até aqui.

“É difícil dizer o que seria diferente, com o aprendizado de um erro eu evitei tantos outros… Há vários erros que tivemos e coisas que eu faria diferente.” Um deles, segundo Romero, foi o descuido com cultura da empresa. “Eu inspirava as pessoas pela paixão que eu tinha, mas não era um bom chefe.

Via alguém fazendo uma coisa errada e já falava ‘sai daqui que eu faço’”.

 

Após o sucesso, o que mudou na vida?

Muita pouca coisa mudou, diz Romero. “A ideia de deixar as coisas simples faz parte da minha vida e dos outros founders.

O mais legal de empreender é que se você for bem-sucedido, talvez você ganhe dinheiro. É uma consequência, não é o objetivo”.

 

O que aconteceu a partir da venda do Buscapé?

Os jovens começaram a ter mais vontade de empreender com o exemplo da empresa. “Na época, os melhores alunos queriam ir para serviços públicos, para não arriscar.

Hoje, uma série de jovens está procurando a gente”. De olho nisso, foi criado um programa chamado “sua ideia vale R$ 1 milhão”, entre 2010 e 2011.

Foram mais de 1,6 mil os planos apresentados. “Comecei a me aproximar da Endevor. Virei empreendedor honorário. Comecei a fazer investimento anjo e a participar de conselhos de várias empresas”.

 

Como você vê o ambiente para startups brasileiras hoje?

“Estamos num processo saudável de educação”, diz Romero. “Todo ano é melhor que o anterior e os investidores ficam mais educados”. O empresário nota que os empreendedores estão mais sofisticados.

Atribui esse fato ao surgimento das incubadoras, como Endevor e Cubo.

“O empreendedor que chegava aqui há dois anos não sabia qual era o custo de aquisição de cliente (CAC). Hoje, esse cara chega pronto.”

 

Recomendações para empreendedores:

1) “No final do dia, cada vez mais as empresas não têm ativos tangíveis.

Se você espremer o Buscapé inteiro ou o Google, vai perceber isso”. O que importa mais numa empresa, segundo o empreendedor, são as pessoas. “Você é tão bom quanto o seu pior funcionário”.

2) “O trajeto é muito mais importante que o ponto de chegada.

Vejo muitas pessoas que se frustram porque se preocupam muito com o destino. Quando chega no destino, e aí? Ganhou dinheiro? Se você ganha, ganha muito, mas as chances de ganhar são bem menores que a de outras profissões.

Você tem que estar mais com vontade de mudar o mundo do que com vontade de ganhar dinheiro. O que eu vejo em comum de todos que deram certo é, justamente, que não estavam buscando dinheiro.”

 

Takeaway para ter sucesso no empreendimento

  • Fazer pesquisas não é o suficiente para desenvolver uma boa ideia. É importante que o empreendedor faça um trabalho de campo
  • Mais do que dinheiro, criatividade é indispensável para o crescimento
  • Escalabilidade deve ser uma das prioridades no negócio
  • Escolha o investidor com calma e busque o alinhamento da estratégia. Feeling (química pessoal) também é importante! 

 

Romero Rodrigues
Romero Rodrigues

Romero Rodrigues:
Romero Rodrigues é um empreendedor brasileiro nascido em São Paulo. Sempre foi curioso e teve o pai – empresário formado em engenharia mecânica – como exemplo. Seu primeiro negócio foi uma empresa informal de impressão de panfletos, ainda adolescente. Na faculdade, apaixonado por informática e programação, resolveu fazer uma aposta.
Dois anos depois, nascia – contra a vontade de muitos – um dos grandes sucessos da internet brasileira: o Buscapé. Romero foi CEO da empresa até 2015, mas seguiu como presidente do conselho. Desde então, o empreendedor de 39 anos é sócio do fundo de venture capital Redpoint.

Buscapé:
O Buscapé foi o primeiro site comparador de preços do Brasil. Foi fundado em 1998 por Romero Rodrigues, Ronaldo Takahashi e Rodrigo Borges. Mario Latelier juntou-se ao grupo logo em seguida. Hoje, a empresa atua, além do Brasil, nos EUA, Argentina, Colômbia, Chile, Espanha, México e outros 15 países da América Latina. O Buscapé recebe hoje cerca de 30 milhões de visitas mensais e tem mais de 11 milhões de produtos cadastrados. Começou com 30. Além da comparação de preços, oferece os serviços de compra online, programa de fidelidade, cupons de incentivo ao consumidor e outras soluções de pagamento.
Em 2009, vendeu 91% de suas operações ao grupo sul-africano de mídia Naspers, por 342 milhões de dólares. Trata-se de um dos maiores casos de sucesso no setor brasileiro de startups.


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