Entrevista com Romero Rodrigues, fundador do Buscapé
Parte 3: Entrada do fundo de investimento

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Nesta série da Brazil Venture Capital (BVC), você tem a oportunidade de aprender com os erros e acertos de quem alcançou o sucesso. O primeiro dos entrevistados é Romero Rodrigues, fundador do Buscapé, site comparador de preços pioneiro no Brasil.

Na primeira parte, Romero conta episódios de sua vida que, desde a infância, contribuíram para que se tornasse uma referência. No segundo bloco, você conhece os desafios superados por Romero e seus sócios antes de transformar o Buscapé num dos maiores cases de sucesso do Brasil.

A seguir, apresentamos como o site lidou com a rejeição do varejo à ideia de divulgar preços, e o que fez para sobreviver ao “inverno nuclear” do mercado brasileiro de tecnologia.

 

Fundo de investimento

O comércio eletrônico estava crescendo no Brasil que, em 1998, já ocupava o 19º lugar em número de hosts no mundo e liderava o pódio na América do Sul. No continente americano, ficava atrás apenas dos Estados Unidos e Canadá.

No segundo semestre de 1999, um monte de gente já havia saído de consultorias para montar projetos e ganhar dinheiro com internet.

O Buscapé também estava evoluindo. “Fomos prematuros, mas entramos no momento que todo mundo estava pensando em e-commerce”. E, com a audiência crescente, uma série de investidores começou a se aproximar.

“Nem meus pais entendiam o que eu estava fazendo e, de repente, a mídia começou a falar muito no assunto. Internet não era só uma ferramenta, era também um lifestyle! Daí, começamos a receber convites que iam de uma matéria na Revista Exame até para passar um fim-de-semana na Ilha de Caras. “Foram uns quatro meses muito bons”.

Mas nem todo mundo estava feliz. O quarteto recebeu uma ameaça de processo de uma rede varejista descontente por ter preços comparados com os a concorrência. “O processo não deu em nada”, conta Romero.

Logo que colocaram o Buscapé no ar, Romero e seus sócios receberam cerca de sete propostas de investidores – desde incubadoras de faculdades até bancos de investimento. Para organizar as ideias, eles foram atrás do irmão de um colega da faculdade para receber uma mentoria. Ele trabalhava para a consultora empresarial norte-americana Mckinsey.

“Ele deu muitas dicas e, na segunda-feira, ligou interessado no projeto. Falou que existia uma incubadora de internet, como nos Estados Unidos, mas não tinha nada a ver como a incubadora de faculdade que tínhamos por aqui”.

O contato de Romero deu mais certo do que ele imaginava. O consultor gostou tanto do projeto dos meninos que largou a Mckinsey e convenceu um amigo a montar uma incubadora chamada E-Platform, só para investir no Buscapé. Esse foi o primeiro investimento do site, de 100 mil dólares.

A primeira grande ajuda do irmão do colega de Romero foi com o plano de negócios “no Mckinsey style” – como chama, brincando, Romero. E foi com esse plano de negócios, em fevereiro de 2000, que eles saíram para o seu primeiro roadshow. Receberam propostas de alguns fundos, mas decidiram fechar “de boca” com o Unibanco e o Merrill Lynch em março daquele ano.

No mesmo mês, a bolha da internet explodiu, por causa do crescimento desenfreado da rede. Nos Estados Unidos, a Nasdaq, que reúne empresas de tecnologia, havia passado dos 5 mil pontos, mais do que o dobro do seu valor em apenas um ano. A partir daí, a bolsa começou a derreter.

O temor dos meninos era que o Unibanco e o Merrill Lynch, que só haviam fechado o contrato informalmente com eles, desistisse do investimento, dada a situação do mercado. Mas isso não aconteceu. Romero e seus sócios assinaram o contrato com as instituições em junho daquele ano e seu primeiro investimento classe A (para projetos mais avançados) de 6 milhões de dólares.

O Buscapé sobreviveu ao inverno nuclear. Mas como exatamente? Primeiro, que o site de comparação de preços tinha uma grande vantagem em relação a muitos outros negócios de internet no momento do estouro da bolha: ele já existia, graças ao timing de Romero.

No final de 1999, pouco antes do estouro da bolha, o Buscapé já reunia preços de mais de 150 lojas e entrou, em 2000, com cerca de 30 mil usuários por mês. Volume que, para a época, era excelente.

Dali a três anos, em 2003, o Buscapé bateria na marca dos 30 milhões de usuários por mês. “O nosso plano de negócio mais otimista era chegar nesse ano com 700 mil usuários”. Meta modesta a do quarteto, considerando a relevância que o site conquistou.

As empresas que sobreviveram a esse período, curiosamente, são as que começaram muito antes do burburinho sobre a bolha, que ficou mais forte em setembro de 1999.

O motivo disso é claro para Romero: “quem começou antes do burburinho, como nós, não esperava que fosse explodir a bolha.. Não esperávamos nem venture capital no Brasil em 1998 e começo de 1999, nem sabíamos o que era isso”, conta.

Para pegar dinheiro emprestado no Brasil da época, Romero lembra que era preciso ir na Caixa Econômica Federal e penhorar uma casa, um carro. E os juros eram altíssimos. “Não tem como sair dessa situação. Nós não tínhamos bens para dar de garantia num empréstimo”. Mas a informática resolvia, em partes, o enigma.

Economizar ou gastar para crescer? 

Com o dinheiro em conta, era hora de montar a lojinha. O conselho mais importante que Romero resgata dessa fase do empreendimento é: não gaste com o que você não precisa. O quarteto separou 500 mil dólares dos 3 milhões que haviam recebido para fazer o marketing do site e para montar uma equipe de 20 pessoas.

Vizinho de sala da E-Platform, o Buscapé ocupava uma área de 100 metros quadrados. Economizaram o quanto puderam: no lugar de mesas de escritório, que custariam cerca de 800 reais cada, por que não colocar uma porta em cima de dois cavaletes? Se a ideia de compra consciente era o que eles passavam para o consumidor, encorajando-os a comparar os preços antes de comprar, a filosofia deveria ser a mesma dentro da empresa. “Na verdade, estávamos criando a nossa lojinha, a nossa padaria”.

O time cresceu na medida que o tempo passou. No começo de 2000, eram o quarteto e um estagiário. No fim daquele ano, passariam a ser 35 funcionários. Em 2005, 150. Em 2006, mesmo ano da compra do Bomdfaro, o Buscapé já tinha 350 trabalhadores. O pico atual da empresa é de 1,5 mil colaboradores e 250 milhões de dólares de receita anual.

Romero ressalta: sem o dinheiro do Unibanco e o Merrill Lynch, o Buscapé poderia não ter passado de uma ideia romântica. E ele tem alguma razão, considerando o longo caminho que percorreram do lançamento do site, em junho de 1999, até atingirem o breakeven (equilíbrio financeiro), três anos depois. Além das noites em claro (o pouco que dormiam era no trabalho). E o empurrãozinho veio da reunião para aprovação do orçamento do ano seguinte do site, que foi feita no fim de 2001.

Apesar de o site ainda estar dando prejuízo (que em 2001 havia sido considerável), o plano do quarteto era continuar queimando capital até que atingissem o ponto de equilíbrio financeiro, que estava previsto no plano de negócios para acontecer só em 2003.

Mas aí veio o balde de água fria: “Entramos na reunião e um dos conselheiros falou: olha, eu vejo três tipos de empresa no meu portfólio: as que já morreram, porque acabou o dinheiro; as que estão com o dinheiro acabando e logo vão morrer; e vocês, que ainda tem dinheiro”. Num primeiro momento, soou como um elogio. E até era.

Mas não era o que os meninos queriam ouvir: a proposta do investidor era fechar o Buscapé para salvar o dinheiro que ainda sobrava no caixa da empresa e dividir entre os acionistas. “Não aceitamos”, diz Romero.

1999- Buscapé não gastava e não tinha receita
Final de 99- E-Platform investe 100 mil dólares no empreendimento e ajuda na elaboração do melhor plano de negócio
2000- Buscapé levanta 3 milhões de dólares – começam a montar equipe e usar o dinheiro do investimento.

 

Romero Rodrigues
Romero Rodrigues

Romero Rodrigues:
Romero Rodrigues é um empreendedor brasileiro nascido em São Paulo. Sempre foi curioso e teve o pai – empresário formado em engenharia mecânica – como exemplo. Seu primeiro negócio foi uma empresa informal de impressão de panfletos, ainda adolescente. Na faculdade, apaixonado por informática e programação, resolveu fazer uma aposta.
Dois anos depois, nascia – contra a vontade de muitos – um dos grandes sucessos da internet brasileira: o Buscapé. Romero foi CEO da empresa até 2015, mas seguiu como presidente do conselho. Desde então, o empreendedor de 39 anos é sócio do fundo de venture capital Redpoint.

Buscapé:
O Buscapé foi o primeiro site comparador de preços do Brasil. Foi fundado em 1998 por Romero Rodrigues, Ronaldo Takahashi e Rodrigo Borges. Mario Latelier juntou-se ao grupo logo em seguida. Hoje, a empresa atua, além do Brasil, nos EUA, Argentina, Colômbia, Chile, Espanha, México e outros 15 países da América Latina. O Buscapé recebe hoje cerca de 30 milhões de visitas mensais e tem mais de 11 milhões de produtos cadastrados. Começou com 30. Além da comparação de preços, oferece os serviços de compra online, programa de fidelidade, cupons de incentivo ao consumidor e outras soluções de pagamento.
Em 2009, vendeu 91% de suas operações ao grupo sul-africano de mídia Naspers, por 342 milhões de dólares. Trata-se de um dos maiores casos de sucesso no setor brasileiro de startups.


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