Entrevista com Romero Rodrigues, fundador do Buscapé
Parte 2: Nascimento o Buscapé

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A Brazil Venture Capital (BVC) publicará algumas histórias sobre empreendedores que alcançaram o sucesso e são referências em seus segmentos. O primeiro deles é Romero Rodrigues, fundador do Buscapé. Na primeira parte da entrevista, já publicada aqui no blog da BVC, Romero fala sobre episódios de sua vida que, desde a infância, contribuem para o seu êxito.

Agora você vai saber como nasceu o Buscapé, site comparador de preços pioneiro no Brasil. Ao lado dos amigos Rodrigo Borges e Ronaldo Takahashi, Romero lançou em 1999 a segunda plataforma de comparação de preços do mundo.

Hoje, o Buscapé inspira milhares de novos empreendedores. Mas o início da empreitada não foi exatamente animador, tamanhos os obstáculos enfrentados. A superação desses percalços, no entanto, permitiu ao Buscapé se transformar num dos maiores cases de sucesso do Brasil.

Quer entender como? Acompanhe a seguir:

 

Nascimento do Buscapé

“Em meio a uma ideia e outra, estávamos eu e o Rodrigo (Borges) no laboratório, e ele estava procurando uma impressora para comprar na internet. Até tinha impressora na Amazon, no site da HP, mas não tinha um site para pesquisar preços. Usávamos o site de buscas AltaVista na época”.

Teria sido mais prático se eles pudessem contar com a facilidade de comparar as máquinas disponíveis no mercado numa só tela, como se fosse uma vitrine virtual. Afinal, o que importa na comparação de um produto é o preço, certo?

Dali a um ano, em junho de 1999, o Buscapé seria lançado, o segundo serviço do tipo no mundo.

Começar a colocar a ideia em prática não foi exatamente animador. “Algumas validações morriam internamente e outras morriam quando íamos fazer os primeiros testes de hipótese”, conta Romero. Além disso, o varejo – que seria o patrocinador do modelo de negócio – odiava a ideia.

O Buscapé talvez tenha tido um componente de sorte. “Apesar dos testes malsucedidos, estávamos tão apaixonados pela ideia que seguimos tentando. Parecia uma ideia muito forte, muito boa e a gente acreditava que tínhamos capacidade de desenvolvê-la apesar das externalidades, que era o fato do varejo não estar disposto a colaborar.

O varejo que ia pagar a conta e ele odiava a ideia. Mas a gente achava que ia conseguir trazer massa crítica de consumidor e mudar a cabeça do varejo. Foi arriscado, mas acabou dando certo”.

Poucas conversas rápidas com varejistas foram suficientes para ver que haveria bastante resistência. A rotina dos rapazes à época consistia em ir para a faculdade, depois para o estágio, e passar noite programando o Buscapé.

“Sempre acreditamos que se tivéssemos uma tecnologia muito boa, um produto muito bom, faríamos acontecer. Hoje, a tecnologia não é mais tanto o impedimento. Na época do Buscapé, você tinha que fazer o seu firewall. Tinha que fazer tudo”. “Hoje, entender o que o seu cliente quer (go to market) é muito mais importante do que a tecnologia em si”.

 

Vocês são loucos?

O grupo fez o contrário do óbvio: não testou o mercado primeiro. A ideia original do Buscapé não era captar preços disponíveis online, porque as pessoas não encontravam muitos desses dados na internet.

A ideia era desenvolver um programa (em Delphi) para distribuir em disquete: o varejista instalaria no computador dele e rastrearia programas como planilha de Excel que houvesse preços. Depois, os varejistas escolheriam os preços que fossem ser publicados e o Buscapé cuidaria da divulgação.

Com a primeira versão do software pronta, eles foram bater perna e mostrar ao varejo. De cara, escutaram: “Vocês estão loucos? Não dou preço nem pelo telefone!”. Os varejistas temiam, compreensivelmente, que os preços online afastassem os clientes da loja física.

Mas a esperança dos jovens empreendedores era que o serviço atraísse cada vez mais consumidores para a internet, que o varejo cedesse uma hora e que, eventualmente, até quisessem pagar por isso. Afinal, as lojas precisam estar onde as pessoas estão.

Eles fizeram outra aposta. E, a essas alturas, os meninos já sabiam que começariam a monetizar só quando tivessem escala. Por isso, no começo, a ideia era dar o programa para o varejista de graça, com a esperança que ele não quisesse mais sair.
Mas não esperavam uma primeira impressão tão ruim por parte do varejo.

“Pensamos: a empresa morreu. Era um teste de hipótese e não deu certo”. Ficaram uns dias sem saber o que fazer com um feedback tão negativo. Mas, como eles já haviam trabalhado noites e noites no desenvolvimento do software antes de interagir com o varejo, precisaria haver um plano B.

“Talvez se a gente tivesse começado com uma pranchetinha, falando com os varejistas, teríamos ouvido os primeiros ‘nãos’, voltado para casa e pensado: gente, risca essa ideia, porque nunca vai dar certo”. A vantagem é que, antes de irem a campo, eles já estavam apaixonados pelo projeto do Buscapé.

Até que tiveram a ideia de ir capturando os preços que já estavam online. Mas, dessa vez, desenvolveram um robô para fazer isso, com a ajuda de tecnologias que aprenderam a usar no estágio que faziam no laboratório da faculdade. Reuniram os preços de algumas lojas de informática, um grande varejista ou outro, uma livraria, um supermercado….

E assim foi. Passaram o fim de 1998 e o início de 1999 adicionando varejistas e trabalhando na identidade visual do site, um esforço que, vale lembrar, não exigiu grande capital financeiro.

Em abril de 1999, quando já tinham reunido os preços de 30 empresas, uma amiga de Romero mostrou que havia um site nos Estados Unidos fazendo a mesma coisa que eles queriam fazer. O “mysimon.com” acabou com a ideia romântica dos meninos de serem os primeiros do mundo, mas serviu para dar um choque de realidade em Romero.

A ideia inicial era fazer o lançamento quando chegassem a 100 empresas cadastradas. Mas tiveram que fazer o que dava para serem, no mínimo, o primeiro site de pesquisa de preços do Brasil.

O desespero adiantou o lançamento para junho de 1999, com os dados de 35 lojas, que era tudo o que conseguiram encontrar na internet. Para ajudar na divulgação do serviço, Romero escreveu um press-release, enviou a todos os veículos de imprensa que encontrou, e conseguiu emplacar uma nota em um grande veículo ou outro. O conselho que ele resgata dessa época: “Tem que ser cara de pau.”.

No ano seguinte, em 2000, Mario Letelier (que trabalhava no mercado financeiro e fazia faculdade de administração) passou a integrar a equipe: “Ficamos nós 4 até fevereiro de 2000, até contratarmos o primeiro estagiário, que era desenvolvedor.
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Romero Rodrigues
Romero Rodrigues

Romero Rodrigues:
Romero Rodrigues é um empreendedor brasileiro nascido em São Paulo. Sempre foi curioso e teve o pai – empresário formado em engenharia mecânica – como exemplo. Seu primeiro negócio foi uma empresa informal de impressão de panfletos, ainda adolescente. Na faculdade, apaixonado por informática e programação, resolveu fazer uma aposta.
Dois anos depois, nascia – contra a vontade de muitos – um dos grandes sucessos da internet brasileira: o Buscapé. Romero foi CEO da empresa até 2015, mas seguiu como presidente do conselho. Desde então, o empreendedor de 39 anos é sócio do fundo de venture capital Redpoint.

Buscapé:
O Buscapé foi o primeiro site comparador de preços do Brasil. Foi fundado em 1998 por Romero Rodrigues, Ronaldo Takahashi e Rodrigo Borges. Mario Latelier juntou-se ao grupo logo em seguida. Hoje, a empresa atua, além do Brasil, nos EUA, Argentina, Colômbia, Chile, Espanha, México e outros 15 países da América Latina. O Buscapé recebe hoje cerca de 30 milhões de visitas mensais e tem mais de 11 milhões de produtos cadastrados. Começou com 30. Além da comparação de preços, oferece os serviços de compra online, programa de fidelidade, cupons de incentivo ao consumidor e outras soluções de pagamento.
Em 2009, vendeu 91% de suas operações ao grupo sul-africano de mídia Naspers, por 342 milhões de dólares. Trata-se de um dos maiores casos de sucesso no setor brasileiro de startups.


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