Entrevista com Romero Rodrigues, fundador do Buscapé
Parte 1: Antes de o Buscapé nascer

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O caminho até o sucesso é repleto de obstáculos. Mas ultrapassá-los fica mais fácil conhecendo a experiência de quem já fez o trajeto. Por isso, a Brazil Venture Capital (BVC) publicará algumas histórias de pessoas que venceram os desafios oferecidos pelo mercado brasileiro, e que se tornaram referências para novos empreendedores.

A seguir, você encontra o primeiro dos cinco capítulos sobre a empreitada de Romero Rodrigues, fundador do Buscapé. O paulistano conversou com a BVC sobre episódios que, desde a infância, contribuem para o seu êxito no mundo dos negócios.

Romero é o primeiro de 20 entrevistados desta série realizada pela BVC. Conhecer a história dessas pessoas, que superaram barreiras comuns aos novos empreendedores, pode lhe servir de inspiração. Nós da BVC, certamente, aprendemos bastante 🙂

 

Romero Rodrigues
Romero Rodrigues

Romero Rodrigues:
Romero Rodrigues é um empreendedor brasileiro nascido em São Paulo. Sempre foi curioso e teve o pai – empresário formado em engenharia mecânica – como exemplo. Seu primeiro negócio foi uma empresa informal de impressão de panfletos, ainda adolescente. Na faculdade, apaixonado por informática e programação, resolveu fazer uma aposta.
Dois anos depois, nascia – contra a vontade de muitos – um dos grandes sucessos da internet brasileira: o Buscapé. Romero foi CEO da empresa até 2015, mas seguiu como presidente do conselho. Desde então, o empreendedor de 39 anos é sócio do fundo de venture capital Redpoint.

Buscapé:
O Buscapé foi o primeiro site comparador de preços do Brasil. Foi fundado em 1998 por Romero Rodrigues, Ronaldo Takahashi e Rodrigo Borges. Mario Latelier juntou-se ao grupo logo em seguida. Hoje, a empresa atua, além do Brasil, nos EUA, Argentina, Colômbia, Chile, Espanha, México e outros 15 países da América Latina. O Buscapé recebe hoje cerca de 30 milhões de visitas mensais e tem mais de 11 milhões de produtos cadastrados. Começou com 30. Além da comparação de preços, oferece os serviços de compra online, programa de fidelidade, cupons de incentivo ao consumidor e outras soluções de pagamento.
Em 2009, vendeu 91% de suas operações ao grupo sul-africano de mídia Naspers, por 342 milhões de dólares. Trata-se de um dos maiores casos de sucesso no setor brasileiro de startups.

 

 

Primeiras lições

Romero Rodrigues ainda lembra quando, por volta dos sete anos, viu seu pai se reerguer correndo contra a maré. Ele estava desempregado em plenos anos 80, marcados como a “década perdida” da economia brasileira. Antes da estabilidade iniciada nos anos 90, os brasileiros conviviam com crescimento baixo e inflação nas alturas, herdada de uma ditadura militar de mais de duas décadas. Poucos arriscavam abrir um negócio.

O pai de Romero foi um desses raros empreendedores: montou uma loja de material de construção no bairro de Pinheiros, em São Paulo, em sociedade com o sogro. Antes mesmo da retomada da atividade econômica, ele anteviu o aquecimento da indústria da construção civil – e o dinheiro começou a entrar. Para o filho, Romero, significou não só a garantia de uma boa educação, mas uma das primeiras lições, que seria determinante para seu sucesso futuro nos negócios: timing.

“Eu adorava trabalhar com o meu pai aos sábados, era meu programa favorito nos fins de semana”, conta. “Fiquei muito próximo do meu pai e do dia a dia da empresa dele. Quando eu tinha 14 anos, fiquei ajudando a administrar os pagamentos durante uma semana quando ele viajou com a minha mãe. Sempre tive grande vontade de empreender”.

Quando estava na oitava série, Romero teve seu primeiro contato com um computador. Estudava num colégio alemão no bairro do Morumbi, zona sul de São Paulo, e fazia uma aula extracurricular de computação. “As aulas eram num PCXT, o modelo mais avançado que existia”, lembra. No primeiro semestre, o curso começou com o pacote da Microsoft Works, uma versão anterior ao Office. “Odiei aquilo, era uma máquina de escrever e eu tinha expectativas maiores em relação ao computador”.

No segundo semestre, as aulas mudaram para o GW-Basic (versão que vinha junto com o resto do software do sistema operativo MS-DOS, da Microsoft) – “aí me apaixonei”, conta Romero, que não conseguia entender como ele mandava instruções para uma máquina que não tinha nada de mecânica e essas eram interpretadas da forma correta. “Isso atrapalhou minha vida social. Eu ficava carregando disquete com meus colegas nerds de computador no intervalo das aulas”.

Desde a época de colégio, Romero tinha um pensamento fixo: como arranjar dinheiro para abrir uma empresa? “E, de repente, me apaixono por informática, que não precisa de capital inicial alto. É basicamente só capital humano.” O próximo passo foi encontrar arcabouço para suas ideias numa faculdade. Nos dois primeiros anos do ensino médio, Romero cogitava cursar Engenharia Elétrica ou Ciência da Computação. “Optei pelo primeiro, na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (POLI-USP), onde meu pai havia feito faculdade”. No universo acadêmico, esse foi seu desabrochar.

Ainda no ensino médio, no entanto, ele e um amigo montaram o primeiro negócio: uma empresa de editoração eletrônica. “Usávamos Page Maker, Corel Draw (softwares de design gráfico) para fazer panfletos, que vendíamos para um tio ou vizinho do bairro”. A dupla de amigos, Romero e Vitor, usou as iniciais de seus nomes para nomear a empresa: RV Editoração Eletrônica.

Com o primeiro empreendimento veio um aprendizado em especial: objetos perdem valor com o passar do tempo. Romero aprendeu cedo que essa é uma fatalidade a ser considerada num bom plano de negócios. Ele aprendeu isso quando uma das peças mais importantes para o andamento do fluxo de trabalho deixou de funcionar: a impressora. E a peça de reposição custava dez vezes mais do que eles já tinham faturado até então com a venda dos folhetos. Resultado: o negócio acabou.

 

Período de incubação

O primeiro amigo de Romero na faculdade, na qual ingressou em 1996, viria a ser também seu sócio com o lançamento do Buscapé, três anos depois. Mas, antes de chegar lá, Romero e Ronaldo Takahashi apostaram em outra ideia: a FocusSoft, uma desenvolvedora informal de softwares sob medida para pequenas empresas.

Ronaldo conhecia alguém que precisava de um sistema de gestão e, aproveitando a oportunidade, desenvolveram o software para ele quase gratuitamente. No processo, estudaram a Microsiga (hoje, a empresa brasileira de software é chamada de Totvs) para entender o que podiam fazer na área de software de gestão. “A gente percebeu que precisava entender muito bem do modelo de negócio da companhia para desenhar o software. Isso ajudou muito mais para frente, no Buscapé”, conta Romero.

A ideia funcionou por três anos, durante os quais seis softwares diferentes foram desenvolvidos. “Tentávamos pegar empresas pequenas e médias que tinham características e necessidades específicas, que nenhum outro software atendesse”.
Entrava pouco dinheiro, mas eles chegavam a faturar. O problema era escala, já que o programa feito sob medida para um cliente dificilmente servia para o outro.

A dupla levava três ou quatro meses para desenvolver um software. Na época, como pesquisadores do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), cada um ganhava 300 reais por mês e os dois vendiam o programa pronto por cerca de 4 mil reais. (Hoje, um software feito por encomenda pode sair por 20 mil reais).

Valeu, de novo, pela experiência. “Foi um ótimo aprendizado de como vender, fazer contrato e desenvolver software”. Mas a verdade é que eles já sentiam o cheiro de uma ideia melhor.

Paralelamente à Focus, Romero cursava a POLI (integral e em alguns momentos semi-integral) e continuava a pensar em outras ideias de negócio. Nessa época ele também fazia estágio, com Rodrigo Borges (outro que viraria sócio no Buscapé) no laboratório de arquitetura de redes de computadores (LARC-USP), uma espécie de empresa júnior para os alunos da faculdade de engenharia. Foi lá, como pesquisador do CNPq, que ele teve seu primeiro contato com a internet. Dali para pensar num pesquisador de preços online foi um passo.

Além de dividir seu tempo entre Focus, faculdade e estágio, Romero mantinha uma vez por semana um encontro com amigos para fazer “brainstorms”. Romero Rodrigues, Rodrigo Borges e Ronaldo Takahashi (os três colegas de faculdade, três “Rôs”, estavam na mesma sala, organizadas por ordem alfabética) começaram a buscar ideias para o lançamento de novos projetos ainda não existentes no mercado. Juntos, pensaram em criar uma loteria online, mas desistiram da ideia ao ponderar a dificuldade para conseguir uma licença da Caixa Econômica Federal, responsável por administrar as Loterias Federais no Brasil (internet era novidade e o mercado ainda ficava inseguro com a ideia).

Pensaram também na possibilidade de fazer um shopping virtual e até em importar a tecnologia chamada de Extern X10 de uma empresa norte-americana para automação residencial – controle do abajur por controle remoto, por exemplo. Hoje, conhecemos como IoT ou “internet das coisas” (do inglês, Internet of Things).

O problema é que a rede elétrica no Brasil era “suja”. “No Japão e nos Estados Unidos, se você coloca um osciloscópio na rede, a senóide é perfeita. Ela não se mexe. No Brasil, não. Não era facilmente adaptável”, explica Romero. Como a ideia dos meninos não era começar a desenvolver a tecnologia do zero, o plano perdeu força e eles seguiram por outro caminho. “Talvez, se a empresa tivesse respondido nosso e-mail, não tivéssemos criado o Buscapé. Quem sabe…”.


Uma resposta

  1. Great content from an inspiring Brazilian success story written by a very talented and savvy person with a unique entrepreneurial perspective and “hands on” approach. Congrats Mitsuru. Please keep posting!

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